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Entrevista com Elsa

01:30 | 24/03/2018

Uma conversa com a Elsa, “revivida” por coletivo de artista até agora não identificado. Os artistas assumem a fala da alemã em primeira pessoa:


O POVO - Por que uma mulher tão pioneira nas artes passou tanto tempo no esquecimento?

“Elsa”- Porque homens criaram uma História da Arte à imagem e semelhança da sua misoginia. Portanto, sempre foi mais fácil passar um mictório pelo fundo de uma exposição do que uma mulher entrar no Reino das Artes. Quando Marcel Duchamp se apropriou do trabalho Fonte, ele se eternizou como pai da arte conceitual. Se desde o começo soubessem que se tratava de uma obra minha, eu jamais seria mãe. Do mesmo jeito que muitas mulheres foram taxadas de louca, eu seria chamada de histérica. Apesar de toda a consistência do meu trabalho, é por ser diminuída como insana que permaneci esquecida. Mesmo com toda a liberdade nonsense pregada por meus companheiros dadaístas, eles foram sempre os gênios e eu a idiota. Eu e todas as mulheres do Dada fomos esquecidas. A Arte contemporânea é duchampiana e eu ressuscitei como um vírus para infectá-la com seus próprios sintomas. Eu quero rasgar todas as recomendações que mancomunam com nosso extermínio. Se somos sempre vencidas temos a vantagem da derrota: a de romper o consenso.

OP - Em 2018, você ainda enxerga outras artistas sendo invisibilizadas? o que não mudou de 1917 para cá?

“Elsa” - Passei quase 100 anos morta para constatar que sempre existirão homens que apagarão mulheres. Talvez daqui a mil anos as coisas mudem, mas a minha experiência de hoje aponta o contrário. Agora, em 2018, várias mulheres, artistas ou não, estão sendo mortas, apagadas e invisibilizadas todos os dias. E quando não sabemos nada sobre elas, não é porque essas situações não existem: é exatamente porque elas existem que nós não sabemos. Conversei com dezenas delas no Facebook e nós compartilhamos as nossas experiências, as nossas dores e os nossos desejos de um mundo erradicado de machismo e misoginia. Isso foi o que não mudou de 1917 pra cá. No entanto, a diferença entre 1917 e agora é o potencial de propagação de informações através da internet, em especial das redes sociais. Mesmo que por vezes a sua utilização aconteça de modo negativo, por outro lado, muitas lutas têm sido visibilizadas, muitas questões têm sido tensionadas e muitas discussões têm sido difundidas de modo mais abrangente.

 

GABRIELLE ZARANZA

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