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Coletivo de Fortaleza levanta dúvidas sobre autoria de obra de Duchamp

Artistas defendem versão de que a obra Fonte não é de autoria de Marcel Duchamp. Por trás da imagem icônica estaria a "protopunk" Elsa von Freytag-Loringhoven

01:30 | 24/03/2018
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Quarta-feira, 14, uma mensagem chega ao meu perfil do Facebook. “Olá, Renato, preciso da sua ajuda, fui roubada por Marcel Duchamp”. Parecia piada. A autora da mensagem era uma mulher até então desconhecida para mim: Elsa von Freytag-Loringhoven. Já Duchamp (1887 - 1968) estudo desde a adolescência, sei da importância desse artista plástico francês. Lembro bem a aula de literatura sobre Dadaísmo, quando a professora destacou as características — a revolta, o nonsense — desse movimento surgido durante a Primeira Guerra Mundial. No livro didático, ilustrando o material: a obra Fonte (1917), mictório que mudou a história da arte. Elsa (1874 – 1927), descobri só agora, foi pioneira das vanguardas. A relevância dela, porém, não chegou às salas de aulas.


Voltando ao contato online inesperado, a tal Elsa “ressuscitada” me enviou um dossiê no qual defende a tese da fraude de Duchamp. A ação de resgate da artista alemã faz parte de uma performance de artistas que, por enquanto, preferem não se identificar. Para chamar atenção para a trajetória da dadaísta, eles estão procurando artistas locais e enviando material sobre a história de Elsa, incluindo dois cartazes lambe-lambe para serem espalhados pela Capital. A partir das pistas que me foram enviadas, pesquisei em publicações nacionais e internacionais, e comprovei: há algo mal contado por trás do polêmico urinol de porcelana assinado com o pseudônimo R. Mutt e divulgado na exposição da Associação de Artistas Independentes de Nova York em 1917.

[SAIBAMAIS]

Durante décadas, a Fonte foi atribuída ao francês. Até que em 1982 veio à tona texto apontando outra versão sobre a autoria no Archives of American Art Journal, publicação que desde 1960 é referência na pesquisa sobre história da arte. O texto é uma carta enviada por Duchamp, em 11 de abril de 1917, à sua irmã Suzanne. Ele escreveu: “Uma amiga com o pseudônimo masculino de Richard Mutt enviou, como escultura, um mictório de porcelana para a exposição dos Independentes”. Segundo a carta, ele não teria idealizado o trabalho e, sim, recebido de alguém, que, segundo defendem pesquisadores há mais de 30 anos, é Elsa. Entre as evidências, uma delas é a cidade onde ela vivia. À época, Elsa morava na cidade de Filadélfia (EUA) e os jornais publicaram, quando começaram as problematizações sobre um mictório num museu, que o artista por trás do personagem R. Mutt seria de lá. Até então, Duchamp não tinha assumido a autoria


Foi só após a morte de Elsa, em 1927, pobre e sem prestígio artístico, que o francês começou a deixar seu nome ser associado diretamente à obra. Em 1950, quatro anos depois da morte de Alfred Stieglitz, quem fotografou a Fonte original, o francês comprovou que o trabalho era, sim, dele. A versão original da obra foi perdida e posteriormente várias réplicas foram autorizadas por Duchamp .


Considerada pioneira do punk, Elsa tinha um diálogo muito estreito com o dadaísta e outros artistas mundo afora. Foi ela quem começou a trabalhar com os chamados “Readymades”, objetos sem valor artístico que foram elevados a essa categoria como protesto. Em 1913, quarto anos antes da Fonte, a alemã registrou a obra Enduring Ornament, que nada mais era que um anel de metal enferrujado.


Após os primeiros indícios de fraude, na década de 1980, outras pontas soltas sobre a Fonte foram surgindo. O suposto autor informou que ele mesmo comprou o mictório da loja JL Moot Iron Works na Quinta Avenida, em Nova Iorque. A versão, porém, foi desmentida, pois a loja não vendia nem fabricava aquele modelo. Além disso, a hipótese de que a autoria seria da artista alemã ganha força com um trocadilho no nome R. Mutt, que teria paralelo com “armut”, que significa pobreza em alemão. Elsa era abertamente contra o sentimento antigermânico que se estabelecia no contexto de guerra.


Para jogar luz sobre essa possível injustiça histórica, surge agora um movimento chamado #HatersdeDuchamp, um coletivo de pessoas que, sem revelar quem são, têm executado diversas ações, a princípio em Fortaleza. Composta por artistas e estudantes, esse grupo vem elaborando ações para “desmascarar” Duchamp. Foi esse grupo que ressuscitou Elsa por meio do perfil no Facebook e de um endereço de email, onde a “própria Elsa” vem conversando com pesquisadores e artistas de diferentes lugares do País. A ação principal é denunciar a negligencia que a dadaísta sofreu, questionando o lugar de importância que Duchamp tomou a partir da apropriação do trabalho de uma mulher. Para o público em geral, o grupo quer deixar um questionamento: historicamente quantas artistas foram apagadas, negligenciadas e plagiadas? por que existem tão poucas mulheres nos estudos sobre História da arte? Pensemos.

 

RENATO ABÊ

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