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A paródia do poder

Novo espetáculo do grupo de teatro parte da história verídica do "ator trambiqueiro" Antônio Maquinista para falar de Nordeste, Brasil e dos poderosos

01:30 | 08/03/2018

Na primeira metade do século XX, entre as décadas de 1910 e 1930, o Nordeste brasileiro ficou marcado pela figura mítica de Lampião. São muitas as histórias que orbitam ao redor do cangaceiro mais conhecido e temido da região e de seu bando, algumas tidas como lendas e outras, fatos verídicos. Um dos últimos, mas que pode mais soar como uma das primeiras, é o caso de Antônio Maquinista, que inspirou o dramaturgo paraibano Astier Basilio a escrever a peça Maquinista. No Teatro Dragão do Mar, o grupo Pavilhão da Magnólia estreia hoje, às 20 horas, sua montagem do texto. A direção é da convidada Herê Aquino e a peça segue em cartaz nos fins de semana de março.

A história de Antônio Maquinista foi descoberta pelo dramaturgo no livro Guerreiros do Sol, de Frederico Pernambucano de Mello, no qual o autor cita o ator, que aplicava pequenos golpes por cidades do interior nordestino até se ver forçado a entrar no bando de Lampião para se proteger de uma surra quase inevitável.

A montagem de Maquinista marca os 13 anos do Pavilhão da Magnólia. “Com a peça, embarcamos em um processo totalmente diferente, um desafio, já que o grupo precisou lidar com outras experiências e práticas como cantar, tocar, dançar e construir uma estética até então nova”, afirma Nelson Albuquerque, ator do grupo. O espetáculo pretende refletir, entre outras questões, sobre luta de poderes. “O coronelismo, o cangaço, o tal do ‘jeitinho brasileiro’ e outras temáticas pontuam o texto de Astier. Nossa escolha foi mais a fundo para incidir sobre a temática maior: o poder”, explica Herê. “O texto trata a questão de forma irônica, então, optamos pela sátira, por parodiar o mundo dos poderosos e as artimanhas que os mantêm no poder”, segue. “Nosso intuito é destronar o rei, parodiar o mundo estabelecido e provocar a subversão por meio do riso de caráter contestador. Por isso, no espetáculo, a figura dos poderosos é satirizada e rebaixada até ficar no nível das coisas comuns”.

Nesse sentido, o espetáculo entra em diálogo com a “atual” situação do Brasil - as aspas, vale ressaltar, vêm do material de divulgação da obra. “Elas foram usadas como crítica para frisar elementos que são impulsionadores da crise, mas que não são tão novos assim. Existe uma estrutura de poder carcomida há muito tempo, que se intensificou com o golpe e que reitera um capitalismo selvagem que beira à barbárie”, considera a diretora. “Era precisa romper a dramaturgia para tocar na vida, discutir artisticamente e politicamente nosso momento. Para isso, abusei da licença poética, rompendo a história contada e a estética escolhida. Suspendemos cenas e trazemos ao palco imagens que dão vazão ao nosso grito e nosso incômodo”.

A estrutura de Maquinista se baseia em diferentes “quadros” e, também, na presença da música ao vivo, através da figura de dois cantadores que acompanham a narrativa. “A musicalidade autoral, tocada e cantada ao vivo pelos atores, é elemento fundamental para a ambientação das cenas e um desafio para o ator criador”, destaca Herê. Os elementos musicais estão no texto original, mas a diretora destaca que, no espetáculo, eles surgem de forma adaptada. “São releituras dos repentistas e da musicalidade, uma vez que usamos instrumentos não convencionais da cultura popular, misturando tudo: rap, música popular, rock baião”, elenca. Dessa forma, Maquinista ainda reflete sobre a ideia de “nordestinidade”. “A busca é por um olhar ampliado da encenação e do mundo que possa transgredir a visão de um sertão fechado. É o humano que nos interessa, por isso vamos no rastro de Guimarães Rosa quando diz que ‘o sertão é o mundo’. Um mundo que pode ser registrado e transformado, mítico, ativo, interativo”, afirma.

 

Espetáculo Maquinista

Quando: de hoje a 11; 15 a 18; e 23 a 25, sempre às 20 horas

Onde: Teatro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)

Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) Classificação: 14 anos

Informações: (85) 3488 8600

 

JOãO GABRIEL TRéZ