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Prosa de guerreiras

A historiadora da arte Carolina Ruoso inicia hoje no V&A um projeto em série. Mensalmente, ela vai trocar cartas com artistas mulheres que estão dialogando com o Ceará

01:30 | 21/02/2018
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Belo Horizonte, 17 de janeiro de 2018


Aspásia,


Faz uns vinte anos que nos conhecemos, não é? Escrevo, Aspásia, para te convidar para esta carta/entrevista, porque quero pensar seu trabalho Guerreiras, neste projeto que pretende ser um espaço de diálogo a respeito das ações de artistas mulheres que atuam na contemporaneidade a partir do Ceará. Abro esta carta com as primeiras lembranças que tenho de você e penso, então, na sua relação com o teatro, qual papel do teatro na sua trajetória como artista? Poderíamos dizer que o teatro seria a sua porta de entrada para os mundos da arte?


Os historiadores da arte, os críticos de arte, trabalham construindo nomeações para adjetivar os trabalhos dos artistas e seus contextos sociais. Ando desconfiada de algumas nomeações, prefiro perguntar para você, como você se identifica? Bailarina, artista visual, dançarina, atriz, performer, artista de rua, artivista... Essa pergunta aparece porque você trabalha com todas estas linguagens que estão presentes no momento, as usa com ousadia, construindo diálogos com os mundos da arte. Guerreiras acontece em diferentes palcos e campos, nos múltiplos cenários em que você atua fazendo da arte um lugar político.


Nos encontramos na cidade de Paris. Na época, você fazia uma residência de estudos na Escola de Belas Artes da cidade de Chalon-sur-Saône, onde desenvolvia uma pesquisa a respeito de uma mulher, Loie Fuller. Era uma escolha que já demonstrava um interesse na trajetória de mulheres? De alguma maneira o seu encontro com o ativismo, com uma proposta de construir uma arte política que ganha peso ao integrar o projeto Devoração, transforma-se nesse olhar para as mulheres Guerreiras? Quem são essas mulheres, como aconteceram esses encontros?

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Compreendo seu trabalho em Guerreiras como um ateliê de artista em movimento, circulando na cidade e fora dela, ao construir encontros que são parte de um percurso de artivismo, arte e vida, que ocupa os mais diferentes espaços, das cidades do interior do Ceará, dos movimentos Indígena, dos Sem Terra, do Cicloativismo, do Feminismo, integrar-se aos Aparecidos Políticos. Esses encontros, com as diferentes mulheres, compõe seu processo criativo para que você possa construir um repertório para Guerreiras. Que história, Aspásia, você nos conta através do espetáculo Guerreiras?

 

Carolina Ruoso, historiadora da arte


Fortaleza, 29 de janeiro de 2018.


Carolina,


Aceito seu convite e acho importantíssima essa iniciativa de memória viva.


O teatro começou na escola, depois passei a ser líder de sala. Foi natural sair da escola e procurar dar continuidade ao teatro, mas foi profissionalmente na dança e com a dança que fui encontrando minha forma de estar no âmbito da arte, sempre parto do corpo e de um corpo que dança. E, como Artista, uso todas as ferramentas que o trabalho pede. Se o trabalho pede que utilize da arte urbana, será da arte urbana então, se o trabalho pede que seja projeção mapeada, material audiovisual, então será. Na minha formação de artista passo por diversas linguagens, desde as danças populares até uma escola de belas artes na França, um lugar complementa o outro, uma linguagem complementa a outra. Sou Artivista.


SIIIIM! Loie Fuller foi uma mulher à frente de seu tempo. Aproximou o corpo com a mediação tecnológica, junto com os irmãos Lumière. Loie Fuller era de uma genialidade incrível, tanto é que até hoje, milhares de pessoas reproduzem a sua dança “SERPENTINE”. Mulher, lésbica, artista, veja só!

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Quando entrei para o Devoração, estava de corpo e alma no ativismo, o que a Barda propunha com era justamente colocar em cena aquilo que eu estava imersa, o ativismo, as lutas junto com movimentos sociais. Colocar isso na dança foi o que me interessou e é o que me interessa na arte hoje, uma arte política. Para o Devoração levei para a cena a resistência por meio da bicicleta e a preparação de um corpo pronto pra luta, com ferramentas do kung fu e o estêncil.


Em Guerreiras meu ateliê é a rua, o sertão, a estrada... Guerreiras está acontecendo e vai acontecer por um tempo. Nesse percurso pude conviver com mulheres que compreendem a vida como luta pela vida. Uma vida de peleja que coloca a luta como centro: lutaram para crescer, lutaram pra ter o café de hoje, pra botar filho crescido no mundo. Essas lutas geram sonhos, geram esperanças de um amanhã diferente. Ou seja: a concepção entre essas mulheres sobre o futuro é uma concepção esperançosa, concebem que o futuro não pode repetir o ontem; as coisas devem se modificar. É sobre essa esperança, sobre esse desejo que tratamos em Guerreiras.


Durante minha permanência nos diversos lugares que me proporcionaram encontros com essas diferentes mulheres, escutei por várias a frase: “quando uma mulher avança, nenhum homem recua”, e mesmo agora, quando escrevo sobre cada encontro que aconteceu (e que vem acontecendo), me sinto retornando e mergulhando nas memórias que venho criando no percurso de Guerreiras e, aqui, não consigo ( muito menos quero) nem desejo, desenhar uma linha que mostre onde é vida e onde é arte. Aqui, essa separação não existe. A dança que venho propondo, é uma dança de resistência, afirmação e luta, tendo a arte como meio, mas acima de tudo é uma dança com o desejo de fazer um elogio a essas mulheres, a todas as mulheres do mundo, encarnadas ou não, encantadas ou não.


Guerreiras é sobre nós mulheres,

Guerreiras somos nós e as que nos antecederam.

Aspásia Mariana, artista interdisciplinar

 

CAROLINA RUOSO

HISTORIADORA DA ARTE

vidaearte@opovo.com.br

GABRIELLE ZARANZA

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