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Depois de cinco anos, Ney Matogrosso encerra turnê Atento aos Sinais

Encerrando sua mais longeva turnê,Ney Matogrosso tira férias antes de trabalhar em novo disco e show. Por enquanto, ele só tem a certeza de que vai regravar Chico Buarque e Sérgio Sampaio

01:30 | 03/02/2018

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Um dos shows mais frios foi para um “público estranho” no Rio de Janeiro. Ney Matogrosso não diz exatamente onde, mas se lembra de que estava em um evento na Barra da Tijuca, cantando para “uma plateia AAA”, quando, curiosamente, nada aconteceu. E por nada entende-se a energia, algo usado para descrever suas aparições desde os anos de Secos & Molhados, quando um animal selvagem subiu ao palco pela primeira vez. Música após música, a plateia não vinha, não cantava, pouco aplaudia. Ney acionou o modo padrão e “apenas” se apresentou. “Eu tive a impressão de estar cantando para uma plateia que não me conhecia, e eu dependo da reação do público para que a noite seja boa. Quanto mais gritam, mais eu me jogo, não tenho limite.”

 

Um dos mais quentes foi em Macapá, das últimas capitais em que Ney jamais havia cantado (faltam Teresina, Porto Velho, Rio Branco, e Boa Vista). Com a plateia nas mãos antes mesmo de começar, ele mostra Vida Louca Vida (Lobão/ Bernardo Vilhena) derrubando morais e bons costumes. “Agora eu vou ali tirar uma roupinha e já volto”, diz antes de começar uma versão mais latinizada de Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola


Uma onda de grito vem da plateia enquanto Ney tira parte da roupa de cima em seu camarim armado no centro do palco. Amor, da fase Secos & Molhados, era o homem olhando para atrás sem traumas de um rompimento de banda doloroso, e Samba do Blackberry, lançado pelo grupo Tono, era a cota do olhar mirando o novo que poderia ser o futuro.


Ney Matogrosso colocou de pé a turnê mais longa de sua vida há pouco mais de cinco anos. Com Atento aos Sinais foi a ginásios, clubes, praças públicas, casas de show. “Eu nunca havia feito uma temporada tão longa”, ele diz. Poucos artistas de sua geração haviam feito temporada tão longa.


Com 76 anos, Ney se torna o artista de sua geração mais ativo nos palcos. Depois de ensaiar colocar ponto final na turnê por algumas vezes, eis que Ney decreta o fim de Atento aos Sinais e faz sua última passagem por São Paulo hoje, 3, no Tom Brasil. O último show da turnê será, dia 31 de março, no Circo Voador (RJ).


A permanência do show no palco foi uma imposição da demanda. Sempre que pensava em parar, mais shows eram vendidos. “Assim, a coisa foi ganhando vulto. Olha, sempre foi muito bom estar no palco com esse show, mas de dois anos e meio para cá é tudo abarrotado de gente.” A euforia por Ney seria também reflexo das afirmações de gênero dos novos tempos? Ele não acredita nisso. “É o show. É o show o que causa tudo isso. Nunca defendi postura alguma além da liberdade, é o que eu defendo”.


Um novo repertório já começa a ser esboçado. Depois de 31 de março, Ney decreta férias e segue para a Grécia, onde prestigia uma exposição sobre sua obra assinada pela artista Alkistis Michaelidou. Só na volta, começa a fechar o set list para seguir seu rito costumeiro. Ele coloca primeiro o show no palco para, depois de testar as canções, gravar o disco. “Não quero mais compromisso com músicas inéditas”. Já é certo que vai gravar Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio), O Que Será (Chico Buarque) e Muito Romântico (Caetano Veloso). A pergunta então é sobre como pretende vestir essas canções. “Não, quero a banda cheia de novo, eletrificada. Estou pensando em manter a mesma banda”, ele diz.

 

GABRIELLE ZARANZA

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