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A Forma da Água chega hoje aos cinemas

Líder de indicações ao Oscar 2018 - com 13 nomeações, incluindo melhor filme - a fantasia do cineasta mexicano Guillermo del Toro chega hoje aos cinemas

01:30 | 01/02/2018

Depois de se assistir A Forma da Água, novo longa do cineasta Guillermo del Toro, existe a certeza de que o diretor era completamente apaixonado por cinema décadas antes de filmar Cronos, em 1993. O mexicano é daqueles artistas movidos por paixões, pela ideia fulminante. Só isso para justificar uma obra que é uma fantasia romântica surgida de um filme B de horror da década de 1950.


Oficialmente, A Forma da Água não tem uma ligação direta com o clássico O Monstro da Lagoa Negra (1954), de Jack Arnold. Na prática, a referência paira em todo o filme. A obra de del Toro tem no centro a história de amor entre uma moça e uma criatura humanóide, anfíbia, encontrada em uma espécie de pântano da América do Sul e levada por cientistas para ser dissecada em um laboratório nos Estados Unidos. Ou seja, algo tomado diretamente lá do filme de 1954. Há ainda uma conspiração soviética, um cinema de rua vazio, um musical sapateado e toda uma gama de referências da Era do Ouro do cinema norte-americano. Tudo isso, diga-se, é bem ancorado na trilha sonora saudosista de Alexandre Desplat.


Só que A Forma da Água não se acaba em referências. Ele trabalha a subversão. O “monstro” alardeado desde a narração em off que abre o filme, não é bem a criatura anfíbia. O cientista comunista passa longe de ser um assassino à la Joseph Stalin. O governo americano não possui um só mocinho. Ou seja, não se trata, definitivamente, de um filme clássico de 1960, ano em que a trama se desenrola. É uma obra de fantasia que surge de um dos diretores mais criativos do cinema atual.


A criatura sem nome, interpretada por Doug Jones, remete a projetos visuais de outras parcerias entre del Toro com o ator. Há algo de assustador, como o Homem Pálido, de O Labirinto do Fauno (2006), mas também um olhar curioso tal qual o de Abe, dos dois Hellboy (2004/2008). Só que aqui, a criatura é uma só em um mundo de humanos. Aliás, ela é sozinha até conhecer Elisa (Sally Hawkings), a faxineira muda do laboratório onde o tal ser está aprisionado. O papel, aliás, é uma demonstração perfeita do alcance da atriz. Há comédia e há drama, há solidão e um romance. E (quase) tudo é encarado sem qualquer palavra – feito para poucos atores.


Invertendo a trama de King Kong (1933), em que a criatura rapta a bela moça, em A Forma da Água a bela moça cria um plano para libertar a criatura. É um deleite cinéfilo, que ganha ainda mais fruição com Giles (Richard Jenkins), o vizinho e melhor amigo de Elisa. Moradores de pequenos apartamentos na segunda planta de um cinema sempre vazio, os dois dedicam seus tempos livres em sonhar com amores impossíveis e assistirem musicais de Hollywood. Michael Stuhlbarg, excelente em Me Chame Pelo Seu Nome, aproveita mais uma chance de demonstrar o talento, enquanto Michael Shannon é um vilão eficiente.


A Forma da Água se completa ainda por rimas temáticas bem construídas por del Toro, que também é roteirista do filme. A moça incapaz de falar, mas fascinada por musicais, que se aproxima de uma criatura que não sabe falar. O monstro capaz de feitos magníficos e que poderia desviar o destino do antagonista. A Forma da Água é o atestado de maturidade de del Toro. Ele não é apenas um criador insano e lotado de referências. Ele é alguém capaz de tecer uma história original e capaz de impulsionar mesmo os grandes clássicos que referencia.

 

Filmografia selecionada de Del Toro


A ESPINHA DO DIABO (2001)

Terceiro longa da carreira de Del Toro, a obra de horror que deu projeção mundial para o diretor mexicano mostrou sua receita de terror, fantasia, drama e, acima de tudo, inventividade.

HELLBOY (2004) E HELLBOY II: O EXÉRCITO DOURADO (2008)

Por mais que não sejam obras 100% originais de Del Toro, as adaptações de Hellboy – em especial O Exército Dourado mostram que um diretor criativo consegue impor dramaticidade mesmo às já cansadas adaptações de histórias em quadrinhos.

O LABIRINTO DO FAUNO (2006)

Considerada, até agora, a obra prima do cineasta, O Labirinto do Fauno é um conto de fadas fantástico que segue, paralelamente, o drama da Guerra Civil Espanhola e os monstros fantasiosos que servem de escapismo para uma jovem. É, mesmo hoje, uma obra poderosa.

CÍRCULO DE FOGO (2013)

Del Toro explora sua própria cinefilia ao fazer um kaiju, um filme de monstros gigantes. É uma grande homenagem ao sub-gênero famoso no Japão. O longa vai ganhar uma sequência ainda este ano, mas Del Toro só produz.

A COLINA ESCARLATE (2015)

O injustiçado horror vitoriano de Guillermo Del Toro foi uma bem-vinda volta ao gênero terror, que nunca sumiu totalmente das obras do cineasta mexicano. Por mais que a trama seja tanto quanto óbvia, o visual do casarão e de tudo que circunda a obra é espetacular.

 

ANDRE BLOC

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