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Filmes cearenses representam produção nacional em Festival de Roterdã

Seleção de filmes cearenses e nordestinos no Festival de Roterdã ressalta a importância da descentralização da produção audiovisual no País

01:30 | 16/01/2018
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Das nove produções brasileiras selecionadas para a 47ª edição do Festival de Roterdã, cinco são nordestinas. Nesse contexto, o Ceará desponta no evento holandês com duas produções: Inferninho, co-dirigido por Pedro Diógenes e Guto Parente, e O Clube dos Canibais, dirigido por Guto. Os trabalhos foram selecionados para diferentes seções do festival, que reconhece ousadias estéticas e narrativas. O Vida&Arte conversou com parte das equipes dos longas cearenses sobre as obras e o impacto da participação no evento para a cultura do Estado.


Produção da Tardo Filmes, O Clube dos Canibais segue a história de Gilda (Ana Luiza Rios) e Otávio (Tavinho Teixeira), casal que tem por hábito comer os empregados. Para contar essa história, a obra une códigos do terror comercial a questões sociais, trazendo o horror não só na violência gráfica, mas nos discursos dos protagonistas. Já Inferninho é uma produção da Marrevolto Filmes com coprodução da Tardo e do Grupo Bagaceira de Teatro que conta, em tom fantástico, a relação amorosa entre Deusimar (Yuri Yamamoto), uma dona de bar que sonha em deixar o local, e Jarbas (Démick Lopes), marinheiro que chega ali procurando estabelecer sua vida.

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A seleção para Roterdã é encarada pelos realizadores não como um “objetivo” alcançado, mas sim um passo que pode impactar positivamente a carreira dos filmes e a própria produção do Estado. “É muito fácil ver isso só como ‘trupe cearense vai para Roterdã’, ‘eles conseguiram’, mas a gente não tem essa relação com o que a gente faz, não temos o objetivo de chegar nesses lugares. Na verdade, essa seleção mostra que o que fazemos aqui é tão foda que a galera de lá selecionou dois filmes. Até um tempo atrás, fazer cinema no Brasil era Rio ou São Paulo. Agora existem outros polos e a gente afirma esse lugar, quer fazer filmes sobre Fortaleza”, ressalta Ticiana Augusto Lima, produtora de O Clube dos Canibais.


“Você pode ver na tela sua cidade, atores daqui, seu jeito de falar. Isso muda o contexto, movimenta. Não só o cinema, mas as peças de teatro, a música, a dança também. O tanto que se olha para cá por causa delas mudou o cenário”, avança Pedro, que completa: “Não à toa, a Globo vem buscar Jesuíta Barbosa (ator pernambucano que construiu carreira no Ceará), as Travestidas (coletivo artístico criado por Silvero Pereira, que participou da novela A Força do Querer em 2017), agora o Démick (ator do grupo Bagaceira e um dos protagonistas de Inferninho, está na nova série da emissora, 13 dias longe do sol)”, elenca. “Sim, a produção dos filmes é toda cearense. Sim, os atores são todos cearenses. E sim, tem qualidade. As pessoas se surpreendem, porque não é o costume, é fora do eixo. Estamos conquistado esse lugar de dizer que é legítimo, que é bom”, resume Ticiana.


“O que nos interessa mais é fazer filme, terminar um e já escrever o roteiro de outro. Agora, a gente faz, sim, filme pra ser visto por muitas pessoas. Passar num festival desses é uma ótima janela: há uma procura maior de outros festivais, a TV fica atenta, as distribuidoras também. Pra mim, o público principal é o do Ceará, mas passar lá talvez faça com que mais gente daqui veja o filme”, considera Pedro. “De uma maneira pragmática, esse circuito de legitimação traz visibilidade e gera interesse. Temos que jogar com isso e entender que chegar nele não é nosso objetivo, mas sim que torna concretos os nossos reais objetivos principais: continuar fazendo filmes e que eles sejam vistos”, finaliza Guto.

JOÃO GABRIEL TRÉZ

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