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Balanço: Mostra de Cinema de Tiradentes aposta na diversidade

01:30 | 30/01/2018
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Esse país continental (e desigual) coube, durante nove dias, numa pequena cidade serrana de Minas Gerais. A 21ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes provou que um festival — quando a curadoria é eficiente — consegue abarcar as muitas nuances desse mesmo Brasil. Os 102 filmes selecionados para as diferentes mostras do evento apresentaram um cardápio rico de um cinema que, infelizmente, não chega a tantas salas comerciais.


O tema central dessa edição foi “Chamado realista”, que convocou os realizadores a pensarem formas de simbolizar a nação dos nossos dias. O tal chamado foi prontamente atendido. Nada mais Brasil 2018 do que uma atriz transexual, no caso a hipnotizante Julia Katharine, vencer o troféu Helena Ignez, que indica o destaque feminino da edição. Nosso audiovisual finalmente parece aberto às diversidades (de gêneros, raças e etnias) e Julia, espetacular no filme Lembro Mais dos Corvos, coroa esse momento.


“Eu quero que nos próximos anos mais mulheres trans estejam presentes aqui no festival em parceria com as mulheres cis e com os homens também. É importante que vocês entendam que o nosso papel aqui não é de disputa, é de igualdade”, apontou, emocionada, a atriz, de prêmio à mão.


Raquel Hallak,coordenadora-geral do festival, falou ao O POVO sobre a “missão” da mostra como um espaço para novas vozes. “Essa mudança (no perfil dos realizadores) está acontecendo, é uma verdade que muitas vezes está camuflada, Tiradentes vem aqui e fala que a produção é assim, diversa. O “Chamado realista” e um reflexo dos filmes escritos. A gente não põe peneira para tampar esse sol, esse novo norte. O cinema é um importante instrumento de transformação social e como as questões politicas sociais, de representativdade das minorias estão no audiovisual”.


A atriz e diretora Helena Ignez faz coro. “A gente tem que tirar o cinema dessa colonização mental e isso é uma luta de pensamento. Um evento como a Mostra de Tiradentes tem que se impor de uma forma absoluta para eliminar esse cinema que desrespeita as desigualdades”, aponta.


Além de jogar luz nas causas dos movimentos negros e LGBTS, o evento abraçou também a questão indígena. Duas importantes produções com o tema se destacaram nesta edição: o curta-metragem Fantasia de Índio (de Manuela Andrade) e o longa Ara Pyau - A Primavera Guarani (de Carlos Eduardo Magalhães ). Tiradentes parece estar de fato consolidado como um espaço de aproximação do Brasil com ele mesmo.


O jornalista viajou a convite do evento.

 

RENATO ABÊ

ENVIADO A TIRADENTES*

renatoabe@opovo.com.br

 

 

Indicação de curtas


Calma (RJ)

Vencedor da Mostra Foco pelo júri da crítica, o filme dirigido por Rafael Simões consegue ser delicado e violento ao apresentar o cotidiano de uma “periferia da periferia” do Rio de Janeiro. O silêncio transforma a obra em poesia em estado bruto.

 

Febre (SP)

Dirigido por João Marcos de Almeida e Sergio Silva, o curta apresenta a juventude classe média com autocrítica e sinceridade. O ator Fábio Audi consegue dar diferentes cores a um protagonista inquieto e movido a paixões.

Inconfissões (RJ)

A diretora Ana Galizia narra a vida do tio (morto em consequência do HVI) por meio de fotos tiradas por ele mesmo. O erotismo cotidiano é preciso e, apesar do tom de homenagem, o filme é corajoso.

 

GABRIELLE ZARANZA

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