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A Bela da Tarde retorna aos cinemas depois de meio século

Focando na sexualidade feminina, o filme A Bela da Tarde, dirigido por Luis Buñuel e protagonizado por Catherine Deneuve, retorna aos cinemas meio século depois do lançamento

01:30 | 06/12/2017
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Ainda que os anos 1960 tenham sido palco de contracultura, movimentos antiguerra e liberação sexual, os tabus e comportamentos da sociedade ocidental da época ainda eram, em maioria, conservadores. Historicamente lugar de provocação e ousadia, a arte era a principal ferramenta para remexer o sedimentado. Há 50 anos, entre várias obras que abordavam diversos tabus, estreava A Bela da Tarde. O filme, que volta aos cinemas amanhã, 7, foi dirigido pelo espanhol Luis Buñuel e foca na história de Séverine (Catherine Deneuve), uma jovem dona de casa burguesa que não consegue fazer sexo com o marido mas, com fantasias masoquistas, começa a trabalhar como prostituta num bordel de alta classe. Meio século depois, a discussão sobre sexualidade parece cada vez mais contemporânea.

“A questão feminina hoje está muito latente, as mulheres estão discutindo seus papéis na sociedade”, aponta Francesca Azzi, diretora da Zeta Filmes, distribuidora responsável pelo relançamento do longa no Brasil. “A ‘bela da tarde’ é um ícone muito específico de uma figura burguesa que resolve se deixar levar pelos desejos. O nome de Buñuel é muito forte e é importante tê-lo nas salas de cinema”, considera a diretora. O filme faz parte do projeto Clássica, da Zeta, que desde 2015 relança cópias restauradas de velhos e “novos” clássicos. “Quando você vai assistir a um filme desses, que tem meio século, é como se reproduzisse um pequeno fato histórico na experiência individual. O filme está em cartaz aqui e agora, está vivo, respira, volta à discussão”, ressalta.

A jornalista e roteirista Sylvia Palma, que em 2016 fez a curadoria da Mostra Luis Buñuel - Vida e Obra (uma das maiores no Brasil sobre o diretor, na Caixa Cultural Rio), aponta que o filme é marcado, em especial, pela abordagem contemporânea de Buñuel. “É surpreendente constatar a contemporaneidade do cinema deste cineasta ímpar. A Bela da Tarde é mais uma de suas obras consolidadas através de um olhar iconoclasta e sutil do mundo, sempre criticando a burguesia, os políticos de direita, a religião católica”, avalia. Sylvia ainda ressalta que a indefinição do que é de fato realidade na trama provocou o puritanismo da época - as fantasias de Séverine, afinal, aparentam ser mais reais do que o cotidiano em que vive. “A história chamou a atenção por sacudir o sacro recinto do lar burguês com as fantasias eróticas de uma esposa exemplar, cujos desejos não sabemos se são concretizados ou não. Sequências que não deixam pistas se são reais ou delírios abalaram os alicerces da sociedade da época. Essas dúvidas pontuam o filme até o final”, afirma a curadora.

“As representações femininas de Buñuel são intensas: mulheres fortes, cheias de desejo, culpa, repressão e libertação. Ainda hoje, elas fazem sentido”, elabora Sylvia. Apesar dos recentes silenciamentos de obras artísticas que falam de sexualidade, ainda mais feminina, Francesca acredita que A Bela da Tarde não deverá sofrer com reações do tipo. “O filme é muito audacioso para aquela época e hoje, com momentos de repressão e censura, segue sendo.

A questão sexual é sempre uma questão”, diz, referindo-se à permanência do tabu de mostrar ou refletir sobre o assunto. “No entanto, no cinema há classificação indicativa, compra de ingresso, exibição dentro de uma sala. Por enquanto, não tivemos nenhum tipo de reação negativa. Talvez o MBL (Movimento Brasil Livre, um dos principais críticos à abordagem de sexualidade pela arte) não descobriu o filme (risos). Se acontecesse (censura), ia ser estranhíssimo”.

 

OUTROS CLÁSSICOS

Longas dos EUA, França e Itália com reestreia prevista no projeto Clássica, da Zeta Filmes

 

A Primeira Noite de Um Homem (1967)

Outro clássico lançado no mesmo ano que A Bela da Tarde, o filme de Mike Nichols tem previsão de voltar às telas no dia 5 de janeiro

Acossado (1960)

Dirigido por Jean-Luc Godard e um dos principais filmes da nouvelle vague, movimento cinematográfico francês, o longa tem reestreia marcada para 1º de fevereiro de 2018

Stromboli (1950)

Com reestreia prevista para 29/3, a obra é dirigida pelo italiano Roberto Rossellini. Com 67 anos, o longa será o clássico mais antigo relançado pela Zeta Filmes

JOãO GABRIEL TRéZ