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Transformar isto em outra coisa

Feito sem aviso, TU, quarto disco da carreira da cantora e compositora Tulipa Ruiz, traz músicas em formato cru e defende a liberdade

01:30 | 20/11/2017

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A cantora e compositora paulistana Tulipa Ruiz já mostrou, ao longo dos quase dez anos de carreira, o gosto que tem por mudar, revisitar-se, transformar a si mesma. O ponto alto dessa auto-recriação chega com TU, disco gravado sem aviso em Nova York e lançado no último dia 10. Inicialmente pensado como um projeto de releitura no formato voz e violão de canções dos três CDs anteriores da cantora - um disco “menor” -, TU cresceu, mudou. É na perspectiva da mudança, seja musical ou política, que a obra se baseia.


“Temos um formato de show que eu chamo de ‘nude’, voz e violão. Nele, as músicas ficavam diferentes, mais claras, e eu quis gravá-las desse jeito”, contextualizam Tulipa, em entrevista por telefone, usando o plural para se referir a ela e a Gustavo Ruiz, seu irmão, que produziu e toca violão no disco. À dupla, soma-se o percussionista francês Stéphane San Juan, amigo dos irmãos e estimulador da concretização do álbum, que também produziu TU e é responsável pelas percussões.


“A princípio, ele seria um disco só de releituras, mas a gente se empolgou com o formato cru. As letras, o violão do Gustavo, tudo fica muito evidente”, aponta a cantora. “O processo sempre vai me ensinando muitas coisas. A criação, as músicas, elas vão ficando tão fortes que parecem que têm vida própria. Elas me contam do que precisam”, metaforiza Tulipa. No rápido processo de produção de TU, o disco tomou corpo e o que era um álbum de releituras acabou terminando com mais inéditas – são quatro regravações e cinco músicas novas. Entre as novidades, Pedra, parceria da década de 1970 entre o guitarrista Luiz Chagas, pai de Tulipa, e Dirceu Rodrigues; Game, cujo título da música pode ser lido como uma variação do verbo “gamar” e como a palavra “jogo” em inglês; e Terrorista del Amor, em espanhol e cantada em parceria com o filho do cineasta Alejandro Jodorowsky, Adan.


Junto às “demandas” musicais, TU é marcado pela vontade da cantora em falar politicamente. O próprio nome do disco acaba funcionando, como explica Tulipa, como um convite à empatia. “‘Tu’ é um pedaço do meu nome, sou eu. Mas também é você. Essa palavra é um exercício pra gente se olhar e olhar o outro, respeitar o outro”, estabelece. De modo mais incisivo, Tulipa relaciona as escolhas das músicas regravadas em TU à situação do País. “Seria muito tranquilo regravar só as mais pedidas, fazer um greatest hits, só que a seleção das músicas tem a ver com o atual momento que a gente está vivendo”, afirma.


Das quatro regravações, duas são parcerias “que fazem todo o sentido nessa atmosfera”: Dois Cafés (Tudo Tanto, 2012), com Lulu Santos - “tem que correr, correr / tem que se adaptar / tem tanta conta e não tem grana pra pagar” -, e Algo Maior (Dancê, 2015), com a banda Metá Metá - “tá pra nascer algo maior / que vá tirar do lugar as coisas / que cismam em não andar”. As outras duas são releituras de Pedrinho e Desinibida. “Foi muito importante a decisão de tê-las nesse momento de censura”, considera. Pedrinho, gravada originalmente em Efêmera (2010), fala de um “cara cortês (...) bem resolvido com sua nudez”. Já Desinibida, do Tudo Tanto (2012), foca em uma personagem “concreta”, “ tão relaxada” e que “dormiu com todos os amigos”. “Hoje, a gente precisa se blindar com desinibidas e Pedrinhos, tê-los em nosso exército. A gente precisa entender que o eu-lírico é livre. Você não pode querer limitar ou definir um personagem, uma obra de arte. Eu não aceito censura para eu-lírico”.


Serviço

 

TU, de Tulipa Ruiz 9 faixas
Para ouvir: goo.gl/mAzsgf
Disponível em plataformas digitais (Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play e Itunes) 

JOÃO GABRIEL TRÉZ

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