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Entrevista com o grafiteiro Speto

01:30 | 28/11/2017
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Speto é pioneiro na arte do grafite brasileiro, começando a praticar na década de 1980. De lá para cá, o artista tornou-se referência internacional na área. Com desenhos estampados em paredes do mundo inteiro, Speto apresenta um estilo singular criado a partir de aspectos da cultura do País e suas histórias folclóricas. Sua arte já foi parte da identidade visual de marcas grandes, como Coca-Cola, e de clipes de músicos prestigiados, como Beyoncé e O Rappa. Também expôs em museus e galerias de arte. O grafiteiro conversou com O POVO sobre criticidade, consumo de arte e inspirações. (Alexia Vieira/ Especial para O POVO)


OP: Conhecer as cidades que você grafita muda o que você tinha em mente para pintar?

Speto: Normalmente quando vou fazer uma história, um grafite, eu sempre estou observando as pessoas. Por exemplo, essa cadeira que tem um coqueiro me inspirou a incluir um coqueiro no desenho. Um dia, voltando pela orla, reparei que tem muita gente de óculos escuro, por isso vou colocar um óculos na personagem. Sempre vou colocando os elementos em que reparo. Diferente do que as pessoas pensam, fazer grafite requer uma disciplina rígida que me deixa sem tempo de investigação. E não gosto de fazer as coisas pela internet. Então estou toda hora observando. Em toda  cidade que vou é assim.

 

OP: Um dos objetivos dessa edição do festival foi adentrar a periferia, fazer a conexão com quem não tem tanto acesso a arte. Você já é um artista reconhecido e vive do grafite. Como vê essa relação entre a arte de rua que é criminalizada e a que é reconhecida?

Speto: Por lei, o grafite é proibido no mundo inteiro. Se todos os governantes do mundo deixassem sair grafitando, imagina a baderna que ia ser. Proibido já tem muito, se fosse legalizado não teria limite. Eu moro na Vila Madalena (SP), e lá tem muitas paredes de propriedades privadas que é só pedir autorização para pintar. Eu já fiz muito isso. Faço grafite há 32 anos, dos quais 20 foram dureza. Arte é difícil e demora muito tempo, por isso tem que persistir. Não esperar as coisas caírem do céu. Eu já fui muito marginalizado também.

OP: Você faz parte da era do grafite que começou no fim da ditadura. Hoje, existe um crescimento da onda conservadora no País, a arte de rua está sofrendo com isso?

Speto: A arte de rua não sofre com isso. O Doria, por exemplo, não está fazendo nada de novo. O grafite tem uma duração pequena, acaba desbotando. Isso de apagar é muito comum. Os Gêmeos já fizeram um prédio inteiro que acabou sendo demolido depois. Nós estamos acostumados, as pessoas não entendem que é assim que funciona. Além disso, temos que agir como cidadãos e respeitar as leis. Não dá pra achar que porque é grafiteiro vai fazer o que quiser e o mundo tem que aceitar. Acho que a ordem nos espaços públicos se faz necessária, porque é muita gente pintando. Claro que o grafite, na sua diversidade, tem vandalismo também. Quem quiser que vá fazer isso.

 

OP: A visibilidade dada a essa arte e a comercialização permitiu o acesso a outros espaços, como museus e equipamentos governamentais. Isso tirou o espaço da crítica nessa arte? Você percebe a arte de rua tornando-se “menos transgressora” e mais acomodada nesses novos espaços?

Speto: Cada suporte tem uma maneira de ser feito. É errado achar que o artista só faz um tipo de grafite. Nós temos curiosidade e queremos desafios de mídias e técnicas diferentes. Não tem porque se limitar, sem isso não há evolução. Também acho errado pensar que os grafiteiros não podem ser profissionais. Existe um romantismo, talvez distorcido, sobre a vida do artista. É natural isso de querer consumir arte. Na História da Arte vemos que sempre existiu a comercialização.

 

Confira o vídeo com o artista Speto feita pelo O POVO:

 

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ADRIANO NOGUEIRA

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