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Com trama simples, Liga da Justiça representa acerto da DC Comics

Com uma trama simples e sem segredos, o filme da DC Comics/Warner reúne Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman e Ciborgue

01:30 | 20/11/2017
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Liga da Justiça é uma prova de que a DC Comics/Warner lê críticas. Há anos construindo um universo cinematográfico estendido de forma apressada e sem profundidade, o estúdio se acostumou a resultados mornos desde o caótico O Homem de Aço (2013), de Zack Snyder, que iniciou o processo. A maior aposta, Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (2016) muito ousou e pouco acertou. Já Esquadrão Suicida (2016) prova que qualquer obra baseada em quadrinhos Marvel ou DC pode ser um sucesso comercial: chamar o filme de terrível é um eufemismo. Liga da Justiça, por outro lado, é mais Mulher-Maravilha (2017) e menos Batman vs. Superman. É tradicional, narrativamente bem desenvolvido, sem arroubos de genialidade, mas sem ofender a inteligência de quem vê. É, em suma, um filme de super-herói satisfatório.


Claro que falamos de um mercado supersaturado. O que diferencia Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Sony/Marvel), Thor: Ragnarok (Marvel) e Liga da Justiça (DC/Warner)? Todos de 2017, todos recheados de humor e ação, todos preocupados em construir a profundidade do protagonista, todos com vilões meio unidimensionais. O que faz de um filme bom ou ruim é a disposição de quem vê. São filmes manufaturados para não ofender. E são todos eficientes nisso.


A DC/Warner constrói em Liga da Justiça uma obra até menos memorável que Batman vs. Superman. Mas um filme bem melhor. O roteiro, de Chris Terrio e Zack Snyder, com um tapa geral de Joss Whedon, consegue expor de forma clara - até didática - os dilemas dos cinco membros originais da versão cinematográfica do supergrupo. Batman (Ben Affleck) e a dificuldade de lidar com os outros; Mulher-Maravilha (Gal Gadot) e a culpa de alguém que se fechou para o mundo após sofrer uma perda; Flash (Ezra Miller), preso por uma situação sem correção; Aquaman (Jason Momoa), o filho pródigo de Atlantis; e Ciborgue (Ray Fisher), que não sabe o limite das próprias tecnologia e humanidade.


A trama não tem lá nenhum segredo. Após a morte do Superman, a Terra está mais vulnerável ao terror. A ameaça global da vez é o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), que quer reunir três artefatos chamados de “Caixas Maternas” para liberar um poder destrutivo, evitado há milênios em uma guerra que envolveu amazonas, atlantes, homens e deuses. Relutantemente, Mulher-Maravilha, Batman, Flash, Aquaman e Ciborgue decidem atuar juntos. Mas talvez os cinco superseres não sejam suficientes.


Criticada pelo excesso de seriedade, a DC/Warner dessa vez se vaticinou com o humor, no melhor estilo bobo da Marvel. Exagerada como sempre, ela aposta em mais de um “alívio cômico”. Flash é meio que o fã de quadrinhos que entra na Liga da Justiça. É piada a cada esquina – o que funciona, já que Ezra Miller é o mais versátil do elenco. Quem sobra mais é o Batman de Ben Affleck, que tenta rebolar na comédia, mas não tem lá muito jogo de cintura. Tem muito Cavaleiro das Trevas e pouco Batman psicodélico dos anos 1960 (aquele, do Adam West). A contraparte do homem-morcego, por outro lado, é um gol de placa.


Em O Homem de Aço, Clark Kent/Superman (Henry Cavill) não via problema em destruir uma cidade para salvá-la ou quebrar o pescoço de um vilão. Em Liga da Justiça, o mesmo personagem é capaz de interromper uma essencial luta contra um vilão para salvar uma dezenas de pessoas. Como bem define Bruce Wayne/Batman, o kryptoniano de poder divino é o mais humano dos super-heróis. Ele, que escolheu ser humano. No novo filme, sua volta pode ser meio simplista e até soa repetido fazer com que ele lute contra seus amigos (outra vez). Mas Liga da Justiça entende o Superman por seu ideal, pelo que ele representa. Faz jus a um personagem que foi tão maltratado nos filmes anteriores. Limitado, Henry Cavill não consegue se livrar do ar de superioridade vendida nas obras anteriores, mas, ainda assim, não compromete a curva do Super.


Apesar da adição de três novos heróis, Liga da Justiça se mantém didático, palpável em sua infantilidade. É construído para um público que já ama aquele universo e exige muito dele. Antigos pecados continuam incólumes. Vilões unidimensionais, desenvolvimento apressado, cenas de ação com um número insano de planos e cortes. Só que a DC/Warner aprendeu com Mulher-Maravilha que pode engatinhar antes de correr. Em vez de inovações de cara, pode tentar o feijão com arroz gostoso e esquecível. Não é coincidência que o ápice de Liga da Justiça se passe em uma espécie de Chernobyl, em vez de Metrópolis ou Gotham. A DC/Warner aprendeu com os erros, ouviu as críticas e entendeu que falar de super-heróis também é discutir consequências. Agora que passamos pelo básico, resta ousar cada vez mais.

ANDRE BLOC

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