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Um reino feito de barro

Com as mãos molhadas, Maria de Lourdes Cândido transforma o barro em vida. Mestre da cultura construiu uma dinastia através da arte

01:30 | 24/10/2017
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“Me mostra uma luz meu Deus, meu pai, que eu preciso ajudar João a criar nossos filhos”. O apelo de Maria de Lourdes Cândido, mestre da cultura desde 2004, era para conseguir vestir, alimentar e educar as quatro crianças que corriam pela casa e a que estava para nascer. O ano era 1968 e, enquanto o Brasil via o Ato Institucional Número Cinco ser decretado, a família morava em um sítio e equilibrava cada despesa com um ordenado miúdo. “A felicidade era que o patrão dava dois litros de leite, todo dia, para a alimentação dos meninos”. Aos sábados, Maria vestia as crianças e caminhava rumo ao Centro de Juazeiro para fazer as compras. A vida era difícil. Havia a casa para cuidar e o labor na roça.

 

Em uma das caminhadas no comércio da cidade, passando por um armazém, as meninas se encantaram com um conjunto de panelas de barro. “Minhas filhas, não dá hoje não. Quando for sábado eu compro. Tenham paciência”, foi a resposta da mãe para os pedidos infantis. “Nós morávamos perto de um barreiro onde o gado bebia água. Colhi aquele barro. Eu vi as coisinhas feitas no armazém e fui inventar. Fiz os brinquedinhos para eles: panelinha, pote, pratinhos, cadeira, fogão. As coisas de miudezas. Fazia para eles brincarem pois assim tinha mais liberdade para cuidar da roça e da luta de casa”, explica Maria de Lourdes Cândido.

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Mas as crianças gostaram, o marido gostou e o povo das redondezas também aprovou as artes. Maria saiu de comércio em comércio oferecendo os pequenos objetos. Vendeu uma dúzia para um, meia dúzia para outro e voltou para o sítio saltitando de alegria. “Quando cheguei em casa disse a meu marido que não queria mais pouco barro, queria muito”, lembra. Em 1970, dois anos após a primeira vez que sujou as mãos no barro, Maria já tinha encomendas de toda a Região do Cariri. Suas peças ficaram conhecidas pela qualidade e esmero. Para ficar mais perto dos comerciantes e dos atravessadores de artesanato, a família saiu do sítio. João Cândido, o marido, não trabalharia mais com o gado. Transformou-se em braço direito e apoiador da esposa. Eram dele as funções de comprar o barro, bater com pedaços de madeira até conseguir a consistência correta, ajudar nas negociações, no manejo e no transporte.


Pensando em complementar a renda familiar, Maria criou uma dinastia a partir do barro. Para conseguir uma peça com a marca ‘Cândido’ é preciso fazer encomenda. “Hoje a vida é mais fácil”, diz a artista. Há um forno para assar até trinta peças e um moedor para o barro, que não é mais batido a pauladas, mas processado. Além das filhas, o conhecimento foi repassado a noras, genros, netos e netas. “As pequenas aprenderam ‘bem dizer’ comigo. Eu ficava trabalhando e elas sentadas em volta, fazia uma bolinha de barro e entregava para cada uma modelar. E João olhando e achando lindo. João é meu amor”, celebra Maria.

 

PERFIL

Maria de Lourdes Cândido Monteiro, natural de Juazeiro do Norte, foi titulada mestre da cultura em 2004 em reconhecimento a seu trabalho artístico com o barro cozido. É casada com João Cândido e com ele teve onze filhos. A família inteira, incluindo noras e genros, aprendeu a molhar as mãos e modelar. As peças com a marca ‘Cândido’ são reconhecidas em circuitos artísticos e culturais. Maria tem 78 anos e quer trabalhar até o fim de seus dias. “Espero ser como minha mãe, que viveu até os 104 anos”, deseja.

 

ENTENDA A SÉRIE

O Vida&Arte publica esta semana série de matérias sobre os mestres da cultura residentes no Cariri, região com maior número de mestres vivos no Ceará. Eles são diplomados pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult) em virtude do seu trabalho dedicado a propagar as tradições culturais. Anualmente, os artistas se reúnem no Encontro Mestres do Mundo, evento que recebe hoje, no Rio de Janeiro, o Prêmio Rodrigo Melo Franco do Iphan. Amanhã, o V&A conta a história do artista visual Stênio Diniz.

 

ISABEL COSTA

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