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Que história é essa?

Após polêmica envolvendo pesquisadores e o programa Guia Politicamente Incorreto, o V&A convida historiadores para discutir o modo como conteúdos históricos têm chegado ao grande público

01:30 | 30/10/2017
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Lira Neto, Laurentino Gomes e Mary Del Priore foram alguns dos pesquisadores brasileiros que na última semana criticaram publicamente o programa Guia Politicamente Incorreto, do canal History Channel. Entrevistados para compor série de episódios que procura desmistificar capítulos da história do País, os pesquisadores pediram para ter seus depoimentos suprimidos da produção (e afirmaram, inclusive, não saber que suas falas seriam incluídas nesse programa). O desconforto se deu, segundo as palavras de Lira, pelo fato de o Guia — ao focar em fatos surpreendentes sobre o passado do País — recorrer “à superficialidade e ao polemismo fácil”, escapando do compromisso com o rigor da pesquisa histórica. O Vida&Arte repercutiu o caso junto a historiadores.


Para o professor Airton de Farias, o primeiro ponto a ser considerado é que esses produtos que destacam a história a partir de curiosidades precisam conquistar o público num primeiro olhar. “São objetos culturais, mas são também uma mercadoria e têm que estimular o público a consumir. Aí se investe numa espetacularização, num sensacionalismo e num tipo de humor que não contribuem para a formação histórica”, avalia o autor do livro História do Ceará.


Airton aponta que a busca por essas narrativas “impactantes” acaba afastando o leitor/espectador de uma compreensão mais ampla dos fatos. “Esse tipo de produto transforma a história num folhetim cheio de reviravoltas impactantes e isso acaba descredenciando a produção historiográfica. O pesquisador pode até falar de curiosidades, fatos engraçados, mas isso não pode ser o centro, a reflexão tem que ser mais profunda”, aponta.


Já o historiador Elias Veras destaca não ser tão “radical’ quanto à possibilidade formativa de programas como o Guia Politicamente Incorreto. “Não creio que seja impossível produzir narrativas históricas de qualidade, do ponto de vista da pesquisa histórica, utilizando novas linguagens como a televisão e o cinema. Um bom exemplo desse tipo de empreendimento é o programa Era uma vez uma história (Band)”, aponta. Elias, entretanto, pondera: “Essas produções, que pretendem alcançar o grande público, precisam se orientar pela responsabilidade e pesquisa histórica, ainda mais quando reivindicam um caráter não ficcional. A história pode ser divertida, mas sem sacrifício dos compromissos com a ética e com a pesquisa”.


Homer Simpson?


No caso envolvendo o canal History Channel chamou atenção ainda o fato de, segundo Lira, os entrevistados terem sido incentivados a falar para um espectador hipotético que se assemelha ao Homer Simpson (personagem conhecido pela pouca inteligência). Para Américo de Souza, historiador e professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, subestimar o leitor acaba por prejudicar a narrativa historiográfica. “Não se pode partir da ideia de que o leitor médio é um bobão. A gente precisa ter preocupação com quem a gente está falando e de que modo está chegando, mas não se pode ter como parâmetro uma caricatura como o Homer”, aponta.


“O papel social da história é ajudar a aprender a ler o passado a partir de ligações com o presente”, afirma Américo. Ele pondera que o modo como o ensino da história se perpetuou no País contribui para essa leitura para rasa e imediata que reduz interpretações. “Os estudantes decoram as informações, mas não dimensionam como aquele conhecimento pode ajudá-los a compreender o seu lugar no mundo”.


Autor do Guia, o jornalista e escritor Leandro Narloch apontou, por meio de comunicado, entender o desconforto dos pesquisadores em relação a inclusão de suas falas no programa, mas lamenta a retirada dos depoimentos. “Desde o começo, o History tomou a ótima decisão de ouvir gente com convicções políticas diferentes das minhas e incluir declarações que até contrariavam o que eu afirmo no livro. Adorei essa ideia. Com tanta intolerância à divergência de ideias hoje em dia, nada melhor do que criar um debate elegante sobre temas delicados da história do Brasil”. O canal não se pronunciou sobre o caso.

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