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Novos autores do terror usam elementos ocultistas e esotéricos

Nova geração de autores de terror se debruça sobre elementos ocultistas e esotéricos para construir narrativas assustadoras em cenários urbanos

01:30 | 31/10/2017

 

O filme A bruxa elabora seu suspense a partir do que insinua. As razões para a escalada de loucura de três crianças na Nova Inglaterra do século XVII não ficam claras até o desfecho do longa, quando sugestões de bruxaria, sexualidade e opressão religiosa se tornam mais óbvias. O ocultismo se presta bem como temática desse horror que se propõe mais subjetivo. Outros dois lançamentos literários recentes apostam em elementos de misticismo para construir suas tramas de suspense.

 

Também procurado pela RT Features para escrever um livro de terror, o gaúcho Antônio Xerxenesky publicou recentemente As perguntas, sobre uma jovem estudiosa de tradições ocultistas que é chamada para contribuir com uma investigação policial sobre uma seita que vem causando surtos psicóticos em São Paulo. “Meu romance é uma espécie de réplica aos nossos tempos. É um livro repleto de dúvidas metafísicas quando tudo parece tão concreto, tão sem nuances”, explica o autor ao O POVO.


Xerxenesky, que assim como sua protagonista veio do Sul para São Paulo, resgatou de sua história situações que o inspiraram e que dizem muito sobre a geração a que pertence, a dos millennials nascidos no início da década de 1980. “Assim como Alina, vivo mês a mês sem saber se vou conseguir pagar o aluguel e fiz a disciplina de Filosofia da Ciência. Assim como Alina, acordo e continuo vendo sombras e grito até perder a voz”, comenta ele, tocando numa condição da protagonista que reforça o clima de terror da história - sua depressão.

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Uma das autoras latino-americanas mais comentadas dos últimos anos, Mariana Enriquez situa suas tramas em uma Argentina diferente daquela que nós brasileiros conhecemos dos roteiros de viagem. Em As coisas que perdemos no fogo, volume de contos lançado no ano passado e publicado agora no Brasil, a escritora também explora temas ligados ao ocultismo, religiões, depressão e sonhos nublados. Para povoar seus relatos, desenha personagens que estão à margem - travestis, viciados, moradores de rua.


“Os lugares obscuros que descrevo são aqueles por onde me movo, estão literalmente a algumas quadras dos espaços da Buenos Aires opulenta e elegante. Eu transito por esses lugares. Não investigo nada. O que faço é ficar de olho, prestar atenção nessas pessoas como personagens principais da cidade, e não como secundários”, explica a autora, que assume o grau de aproximação que mantém com a tradição do fantástico da região do Rio da Prata, de autores como Onetti, Cortázar e Silvina Ocampo.


No rol dos fantasmas de Enriquez também estão os que restaram da ditadura. Seu modo de tocar o tema, porém, difere em estilo e substância da literatura a que nos habituamos sobre o assunto. “A figura do desaparecido não fala apenas da mecanização da violência do estado repressor, mas também toca uma instância quase sobrenatural: esses assassinados sem corpos têm uma presença autenticamente fantasmagórica. Isso é quase a encarnação do sinistro, do perverso. Os efeitos da ditadura seguem ocorrendo e afetando pessoas reais todos os dias”, comenta.


A aproximação com a política lança luz sobre uma faceta do pós-terror que pode passar despercebida por um leitor mais interessado nos elementos sombrios da narrativa. Em alguns casos, o acercamento é óbvio. Tanto Enriquez quanto Xerxenesky enxertam, em meio aos delírios que constroem, reflexões sobre problemas que os cercam. Enquanto As perguntas apresenta uma geração perdida entre sonhos possíveis e o relógio de ponto, As coisas que perdemos no fogo rumina o lugar da mulher na literatura e na sociedade ao destacar protagonistas femininas em todos os seus contos.


“Por uma tara cultural se usou muito a mulher como símbolo do irracional e do temível - Lilith e as sereias, as mulheres góticas presas e muito mais. Não sei se elas são mais suscetíveis. Leio muito ocultismo e há grandes magos e iniciados dos dois sexos. Mas elas são sim excelentes protagonistas. Acho que deve-se fazer uma releitura dessa tradição e usá-la a nosso favor”, justifica Enriquez, deixando claro que o terror também é campo de luta.


Multimídia

 

Começando hoje e seguindo pelos próximos três dias, o O POVO Online publica uma série de entrevistas com os autores citados na matéria.


Leia hoje a íntegra do bate-papo com o escritor canadense Iain Reid, autor do livro Eu estou pensando em acabar com tudo:


https://goo.gl/7y7d85


 

ADRIANO NOGUEIRA

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