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Jornal

Especial Antônio Bandeira. Bandeira, colecionador de crepúsculos

06/10/2017 01:30:00

Aqui mesmo em Fortaleza, na rua Santa Isabel, o menino Antônio Bandeira teve seu primeiro alumbramento, surpreendeu o primeiro guache, um certo crepúsculo triste e lindo, como estes que costumam aparecer por cá no mês de junho, com raras manchas dum azul estranho. Daí por diante, toda tarde ficava espreitando o espetáculo, foi se fazendo colecionador de crepúsculos, buscando-os diariamente, a princípio na janela de casa, ou na porta da fundição do seu pai, mais tarde junto do mar nas dunas do Mucuripe, no cais do porto; em Maranguape, na Serra Verde, um pouco por toda parte. Depois foi ampliando o seu patrimônio de beleza, ganhou a noite, habitou madrugadas, viu dia nascendo, pescador partindo pro mar, conviveu com gente que enfrentava cada cotidiano com um heroísmo novo e a tentação do artista que já estava lá nele, fazia muito tempo, levou-o a fixar no papel todo aquele material que vinha compondo a tessitura do seu mundo interior. No começo aventurou-se por conta própria, depois frequentou aulas da Mundica, sua primeira professora, depois integrou um grupo de jovens pintores cearenses, que compunham o Centro Cultural de Belas Artes (posteriormente SCAP), depois no Rio, depois em Paris, depois no vasto mundo de que se fez cidadão. Assim formou-se o artista, como se formam os grandes: com talento, com estudo, com trabalho, com coragem, com sofrimento, com amor, numa busca interminável sempre se renovando, pesquisando, perseguido por uma sincera ânsia de realização e somando vivências, amando cidades, navios, gentes, lugares, plantas, coisas, bichos, momentos, captando beleza, com aquela sensibilidade que se pode realmente chamar excepcional, trazendo tudo para seus quadros, transformando tudo em cor, levado pela poderosa capacidade criadora tão cedo revelado, servido por um permanente sentido do poético, uma constante de equilíbrio, que conferem aos seus trabalhos a unidade que valeria bem a pena ver duma vez numa retrospectiva.


A utilização inteligente de todo aquele patrimônio de lembranças reunido com zelosa ternura é outra constante na obra de Bandeira, assim como a definitiva presença da pureza que lhe vem da infância e que o artista cultivava com evidente amor. Que de menino, na verdade, Antônio Bandeira conservou quase tudo - a pureza, a bondade, o riso aberto, a capacidade de ser fazer querer bem, a fácil convivência, essa deliciosa alegria de viver, a simplicidade, a franqueza. Isto tudo somado, o tornou muito verdadeiro, deu-lhe a marca da autenticidade que fez com que em qualquer esquina do mundo, nos bistrôs da Rive Gauche, em Copacabana, na Bahia, ou em qualquer barzinho de beira de praia em Fortaleza em todos os momentos, pintando, conservando, escrevendo, ouvindo, fazendo poesia, fosse sempre o mesmo homem, o mesmo artista, o mesmo poeta, a mesma personalidade com aspectos tão diversos, e ao mesmo tempo tão unidos pela iluminação do seu universo interior.


E, dominando tudo, em todos os ângulos, esse conteúdo humano fabuloso que o faz realmente grande, que está em todos os seus trabalhos, como nota central, vigorosa, esse imponderável tão fácil de ver, e que reflete o homem tranquilo, sem dramas, sem traumas, sem conflitos, mas profundamente emocional, sinceramente afetivo. Tudo isto sem prejuízo do vigor, nem da suave beleza que marcam sua pintura.


As cidades que encontrou, as que amou, as que desamou, as que viu, as que viveu assim como os barcos, estão todos nos seus quadros, pintados pelo poeta, mas são cidades e barcos que se juntam como gente, que se cruzam num milagre de identificação que as vivências cosmopolitas e a força emocional do artista conseguem dentro daquela linha de grandeza humana.


Por Milton Dias (1919-1983)


Reprodução de texto escrito pelo romancista cearense e publicado no O POVO em 27 de julho de 1977. Artigo foi publicado originalmente, em periódicos de Fortaleza, em 1963 e circulou no circuito artístico em razão de exposições feitas por Antônio Bandeira naquele ano.



Adriano Nogueira

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