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Centro Cultural Belchior abre mostra com obras de Chico da Silva

Obras do ícone da pintura primitivista estarão em exposição a partir de hoje, no Centro Cultural Belchior, na praia de Iracema

01:30 | 31/10/2017

Hamilton Nogueira

ESPECIAL PARA O POVO
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O Centro Cultural Belchior abre hoje às 19 horas a exposição Chico da Silva – Um Índio Brasileiro Reinventa a Pintura, com cerca de 18 obras em guache. Emprestadas de colecionadores e instituições, as obras cobrem o período de produção das décadas de 1940 a 1980 envolvendo o pintor. Fazem parte do acervo exposto, além das obras próprias de Chico da Silva, outras da Escola Chico da Silva, que apesar do nome “escola” não o tinha como professor e nem mesmo propósito didático, mas caracterizava uma linhagem; além de uma tela da Escola do Pirambu.


Chico da Silva (1910-1985), pintor primitivista, acreano jus solis e cearense jus sanguinis, é nas palavras do artista plástico Marco Aurélio Ribeiro, “criador de traços incomparáveis, que usava unicamente seu imaginário para pintar seres fantásticos e do folclore brasileiro”. O gênio que não bebeu de fonte alguma, mas desenvolveu uma matriz estética e artística única, trouxe à tona e ao público, de acordo com o psicanalista e um dos curadores da mostra, José Gurgel, “verdades inconscientes que não se vêem em outros artistas como a pulsão de morte e a oralidade, que faz parte do nosso desenvolvimento psíquico”.

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Chico foi o único pintor brasileiro a ganhar, com o ineditismo dos enredos hollywoodianos, uma Menção Honrosa na XXXIII Bienal de Veneza, ainda hoje a mais influente do mundo. Uma história conflituosa com traços de discriminação - durante a negativa de um beneplácito junto à comissão brasileira da qual o artista fazia parte -, o tirou da rota da premiação oficial para destiná-la a mãos sudestinas. Porém, ao invés de atrapalhá-lo, a injustiça o consagrou. O ano era 1966.


Chico fora descoberto, por acaso, nos anos 1940 quando o franco-suíço Jean-Pierre Chabloz, durante andanças nas proximidades da Catedral de Fortaleza, percebeu seus desenhos nos “oitões” das casas – laterais caiadas de branco nas quais continham vários desenhos de origem desconhecida, e que fez o estrangeiro buscar o autor. O que se deu a partir daí foi o nascimento para o mundo desse artista que, para o também curador Luciano Montezuma, “é o grande artista primitivo do País. O primitivo é ele, o Chico”.


José Gurgel explica a dimensão da obra de Chico da Silva. “Chico tem a importância que Joan Miró tem para Barcelona, e Fernando Botero para Bogotá”. A comparação não é exagerada. Na verdade o subdimensiona porque, a despeito da comparação com nomes celebrados internacionalmente, os estudiosos são unânimes ao registrar que Chico criou uma matriz, a partir da qual outros seguiriam, sem a utilização de referências, sem educação formal, sem tutoria, criando a partir do inconsciente.


E por quê o nome Chico da Silva não desfruta de um reconhecimento social proporcional à importância da sua criação em Fortaleza? Por que não há um turismo associado ao seu nome no estilo Liverpool-Beatlemaníacos? Talvez pelo mesmo motivo pelo qual isso também não acontece com Alberto Nepomuceno, Eleazar de Carvalho, Paulo Abel, Nonato Luiz e tantos outros.


O Artista Plástico Eduardo Frota explica. “Falta sensibilidade da classe política, do empresariado e da intelectualidade para transformá-lo nisso. Para dar a ele essa maior inserção social”, diz. “Não há anteparo crítico para entender a importância da obra dele. Aí o levaram para o campo mercadológico. Era legal ter um Chico da Silva em casa sem saber o valor imagético e de desconstrução do imagético eurocêntrico e ocidental”, aprofunda Frota.


Seria bom que a essa altura do texto nós nos perguntássemos quantos Chicos não transitam desconhecidos por aí? Por que não são mais facilmente descobertos? E por que toda a sociedade não se beneficia disso? A resposta mais sincera e enviesada talvez esteja no olhar sobre nós mesmos: o que você colocaria no “oitão” da sua casa?


Hamilton Nogueira é jornalista.

 

SERVIÇO

 

Exposição Chico da Silva – Um Índio Brasileiro Reinventa a Pintura

Quando: Abertura hoje, às 19 horas. Visitação até 29/11

Onde: Centro Cultural Belchior (R. dos Pacajús, 123 - Praia de Iracema). Aberto de segunda a sexta-feira, das 10h às 21 horas e sábados e domingos, das 15h às 21 horas

Entrada franca.

 

ADRIANO NOGUEIRA

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