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Bienal de Dança - Crítica do espetáculo Canil, de Edmar Cândido

Em Canil, o bailarino Edmar Cândido usa o movimento para nos fazer refletir sobre liberdades e identidades individuais

01:30 | 28/10/2017

Henrique Rochelle

ESPECIAL PARA O POVO
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Destaque positivo da programação na primeira metade da Bienal, o trabalho Canil, que Edmar Cândido desenvolveu dentro do Laboratório de Dança Porto Iracema das Artes, é testemunha da qualidade dos artistas e da arte de Fortaleza.


Essa ideia de testemunha também é fundamental para a obra, que coloca o público sentado dentro do palco, dividindo com ele o espaço e sentindo, do chão, a vibração do peso de sua movimentação, trabalhada muito tecnicamente, mas também em notável profundidade estética.

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Num tema de suspeita e vigilância, ele é revistado, se despindo e se vestindo seguidamente, com o movimento cada vez mais cansado, mais bravo e desagradado: o retrato feito não é o de alguém a quem isso ocorre por acaso uma só vez, mas o de um sistema, nem
sempre justo.


Para além desse primeiro momento, o lugar em que Cândido chega mistura a realidade e sua percepção. Depois do choque inicial, de registrarmos e nos incomodarmos com sua perseguição, ele nos olha com um sorriso — que não é sincero: é só uma forma de lidar com o mundo, e de esperar que a situação mostrada se transforme e seja outra.


Mas ela não será. O universo construído é um de indivíduos que sistematicamente sofrem com esse tipo de vigilância e de desconfiança, independente de suas ações apontarem ou não para um comportamento incorreto, ilegal ou inadequado. Já vimos o seu corpo nu, sabemos que ele não esconde nada. Mas a revista continua e se repete, insistente e cruel.


Com um microfone, sua foz é captada, mixada e ampliada em auras desmaterializadas, que vão se perdendo pelo palco, e transformando sua revolta em algo docilizado, domesticado — assim como o seu sorriso triste.


Por fim, o bailarino termina em uma pose, com a respiração arfante e o olhar fixo e para cima, como um cachorro — e ai repensamos o título da obra, que mostra com uma delicadeza pungente essa situação de vigilância constante como causadora de um apagamento de liberdades e identidades de indivíduos, considerados culpados até prova em contrário.


Henrique Rochelle é crítico de dança, editor dos sites Da Quarta Parede e Criticatividade, e Doutor em Artes da Cena pela Unicamp

 

SAIBA MAIS

 

A XI Bienal Internacional de Dança do Ceará acontece até amanhã, 29, em vários palcos da Capital e de cidades do Interior. O Vida&Arte está publicando textos do crítico de dança Henrique Rochelle sobre alguns dos espetáculos que ele tem acompanhado.

ADRIANO NOGUEIRA

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