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Autores renovam o gênero horror com narrativas cheias de fios soltos

Com personagens perdidos entre sonho e realidade, autores renovam o gênero de horror com narrativas cheias de fios soltos. Quatro lançamentos recentes, de autores nacionais e estrangeiros, revigoram o estilo

01:30 | 31/10/2017
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Quando se fala de literatura de terror, dois cenários se desenham. O primeiro deles vem banhado em sangue, com membros fatiados, gritos de desespero e jump scares - os sustos abruptos que saltam da trama. Correndo paralelo está um tipo mais sofisticado de horror, com menos surpresas e mais densidade, narrativas estruturadas não tanto pela ação, mas pelo que sucede na cabeça das personagens. Convencionou-se chamar a esse segundo tipo de pós-terror.


Emprestado do cinema, o termo vem ganhando terreno em nosso cenário literário. Nos últimos meses, alguns lançamentos e traduções chegaram ao mercado nacional, dando fôlego ao estilo e ajudando a movimentar um gênero que parece só ganhar algum destaque quando envolve mutilações e assassinatos em série. São livros adultos, de autores visivelmente empenhados em escapar da banalidade que vem sendo associada ao gênero.

[SAIBAMAIS]

É o caso de Eu estou pensando em acabar com tudo, do escritor canadense Iain Reid, publicado no Brasil pelo selo Fábrica 231, da Rocco. Criado para reunir publicações de destaque do universo pop, o selo chega a um novo patamar de qualidade com este romance carregado de ambiguidade e mistério, traduzido para o português pelo também escritor Santiago Nazarian - outro que vem exercitando com êxito o tal do pós-terror.


“Eu sou muito mais perturbado pelas ameaças metafísicas e existenciais do que pelo horror gore (de violência extrema) ou físico. Eu sabia que algumas pessoas poderiam ler esse livro sem achá-lo assustador, enquanto outras me disseram que se sentiram aterrorizadas”, comenta o autor em entrevista por e-mail. Antes de Eu estou pensando em acabar com tudo, seu primeiro trabalho no campo da ficção, Reid havia publicado dois livros com relatos amenos inspirados em experiências familiares. Para o novo título, trocou o bom humor e a sensação de conforto por delírios e manias de perseguição.

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A fórmula deu certo, e o romance recebeu críticas e menções positivas em veículos e premiações especializadas. “Eu estou pensando em acabar com tudo” é a frase repetida por uma das personagens da história, uma universitária que pensa em colocar um fim no relacionamento enquanto viaja com o namorado para a fazenda dos pais dele, em um passeio que se revela cada vez mais perturbado. A descoberta dessa família disfuncional e seus segredos lança o leitor em uma trama onde os limites entre realidade e delírio parecem borrados. Para esse tipo de horror, respostas nem sempre são necessárias.


No Brasil, o já citado escritor paulistano Santiago Nazarian tem uma produção que também se apropria dessa estética da loucura. O autor já havia se aventurado pelo gênero em Feriado de mim mesmo e aprofundado a experiência em Biofobia, seu último livro, de 2014. Lançou em julho Neve negra, romance de terror encomendado pela RT Features, produtora de cinema responsável pelo fenômeno A bruxa, filme que empolgou crítica e público no ano passado e que demonstra bem o que se chama de pós-terror na sétima arte.


Neve negra acompanha um artista plástico de meia idade que volta de viagem do exterior para casa na noite mais fria do ano, em um dos raros registros de neve no Brasil. Chegando lá, encontra o cachorro morto, percebe que a esposa desapareceu e que o filho apresenta um comportamento estranho. Todo o romance se passa, basicamente, no interior da casa da personagem, cenário onde pouco a pouco são revelados detalhes sobre a intimidade daquela família. Nazarian quer mostrar o que há de perverso nessas relações.


“O que eu sinto, por experiência própria, é que os desejos internos são tão mais obscuros do que aquilo que é manifestado. Quando escrevo que ‘a natureza é má, é madrasta’, que ‘ser pai é uma utopia, uma incerteza para o resto da vida’, não estou dando minha convicção pessoal, estou oferecendo uma proposta, uma visão em negativo. Sinto que essa provocação é parte do meu papel como escritor, principalmente neste neoconservadorismo coió que estamos vivendo”, explica o autor, que aproveitou o romance para explorar um tema que o inquietava, a paternidade. “Agora sinto que não tenho mais nada a falar sobre isso”.

JÁDER SANTANA

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