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As dunas de Paracuru dançam

01:30 | 31/10/2017

Henrique Rochelle

ESPECIAL PARA O POVO
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Praia das Almas, da Paracuru Cia de Dança, dirigida por Flávio Sampaio, usa a imagem da Vila do Parazinho, soterrada pelas dunas no século XIX, para construir uma coreografia arqueológica que encanta, enquanto caça escombros e memórias da origem da cidade de Paracuru.


Em movimentos ondulados como as dunas os bailarinos balançam e são levados. A criação de Jorge Garcia faz um esquecer e encontrar: os corpos vão se cobrindo e se descobrindo, como a vila soterrada, da qual nada resta e, ao mesmo tempo, enquanto memória, algo resiste.


Esses corpos se debatem, despencam pelo chão, são levados de um lugar a outro como se fossem soprados, curvados e retorcidos. Figurando entre os melhores trabalhos do coreógrafo, Praia mostra e aposta em um talento requisitado e às vezes difícil de encontrar: a coreografia para grupos, e (bem) feita em grupo.


Os bailarinos são apenas sete, mas sua potência multiplica sua força. De especial sucesso são as cenas com construção em linha, que permitem ver o efeito da imagem da ação do vento sobre os bailarinos. E também as movimentações em conjunto, que jogam com agrupamentos para reproduzir um pouco do imprevisível e um tanto poético do vento, que ganha forma na areia e, aqui, nos corpos soprados.


Sua chave é a simplicidade: nada é excessivo, nada parece gratuito ou incompleto. A obra não precisa forçar — todo o esforço e o trabalho árduo envolvidos em sua criação são leves. Tudo flui, tudo sopra, tudo venta. À frente de nossos olhos, as dunas se movem e revelam resquícios de lembranças.


Intimista, feita para se assistir de perto, quase grudados, imersos nesse mundo, como se pudéssemos ser também soprados a qualquer momento, Praia é uma obra hiperbólica: elenco, interpretação, coreografia, luz, cena, trilha sonora e direção são ótimos.


A única coisa que lhe falta é circular — por toda parte. Essa é uma daquelas obras que às vezes acontecem em encontros de sorte, e que merecem — e devem — ser vistas, de novo e de novo, por muitos públicos.


Henrique Rochelle é crítico de dança, editor dos sites Da Quarta Parede e Criticatividade e Doutor em Artes da Cena pela Unicamp


SAIBA MAIS

 

A XI Bienal Internacional de Dança do Ceará foi encerrada dia 29, em Fortaleza. O Vida&Arte está publicando textos do crítico de dança Henrique Rochelle sobre alguns dos espetáculos acompanhados por ele.

 

ADRIANO NOGUEIRA

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