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A tradição de brincar de Margarida Guerreiro

Mestre da cultura desde 2004, Margarida é um dos símbolos das artes populares no Cariri. Vida & Arte inicia série de matérias sobre os tesouros vivos

01:30 | 23/10/2017
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Margarida Guerreiro caminha em passos de majestade. Desliza pelos corredores da Casa do Idoso José Bezerra de Menezes, onde vive há nove meses, como a rainha de uma vida inteira. Desde os oito anos, quando chegou em Juazeiro do Norte, a menina de voz grave começou uma reinação que preencheria seus dias e lhe tornaria mestre da cultura: o Guerreiro. Provavelmente surgida em Alagoas nos anos 1920, a brincadeira tem personagens, figurantes, episódios, trajes e enfeites.


A família, toda nascida em Maceió, veio caminhando em passos de fé até chegar ao Cariri. Pai, mãe e “um monte de meninos pequenos” andaram enfileirados durante dias até chegar à terra de Padre Cícero. “Mamãe já fazia romaria aqui. Aí ela pediu ao padrim para trazer a família e ficar aqui. Quando chegou em casa, mamãe disse a papai ‘véi, nós vamos morar no Juazeiro’. E veio todo mundo andando”, conta Margarida - em entrevista ao O POVO.

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Com saúde frágil e audição comprometida, Margarida reconta histórias do passado em fragmentos. Logo depois de chegar ao Cariri, reuniu um grupo de vizinhas para brincar. A arte popular era encenada no quintal e as vozes ecoavam pela rua. “Uma velha tinha um reisado e um guerreiro, tudo misturado. Passou e me viu cantando”, diz. A voz grave foi como o canto de sereia. A mulher entrou e pediu permissão para levar a menina para as brincadeiras cidade afora.


Na casa de repouso, Dona Margarida é rainha. Sentada diante da televisão, na cadeira de plástico branca, ela ostenta bijouterias. Brincos grandes, medalhas do Sagrado Coração de Jesus, pérolas enfileiradas, pulseiras. “Esse aqui que tem vários (cordões) juntos eu ganhei de uma moça de Fortaleza, essa medalha aqui também foi presente”, debulha a coleção de enfeites em pequenos afetos. Todas as manhãs - diferente das outras internas - ela gasta tempos diante do espelho velho e manchado. Fica zangada quando não lhe deixam colocar os adornos. O ritual vem depois do banho, do cigarro e do café.


No quarto também estão os trajes utilizados na montagem do Guerreiro: saia vermelha, brilhos, meias, blusas. Apenas a coroa, fundamental na construção da brincadeira, está distante. Foi emprestada para uma estátua de Nossa Senhora Aparecida.


Margarida construiu um legado imensurável. Ensinou dezenas de crianças a firmar os pés no passo da dança. Brincou em terreiros de todo o Cariri e fundou o Grupo Guerreiro Santa Joana D`Arc. “Ela é a protetora de todas nós”, ensina. Até hoje, mesmo com a idade avançada, - ela não sabe seu ano de nascimento -, Margarida garante que o mundo ao redor para quando ela dança. “O povo vem aqui e pede que eu dance. Quando começa não querem mais que pare. Teve um dia desses que foi até as onze da noite”, conta a mestre da cultura.


Dos filhos que teve, só as meninas gostavam das artes populares. Os herdeiros deveriam ser 18. “Mas morreu um bocado. Eu não sei nem quantos foi que ficou”, força a memória. Impresso na mente de Dona Margarida está mesmo é o repertório de canções usadas nas brincadeiras. “Quando eu vejo a verde campina, eu me alembro dos teus carinhos, do tempo em que eu te amava”, canta de repente e faz levantar o olhar dos passantes. A voz continua imponente. Emenda uma canção na outra e arranca suspiros dos idosos na casa de repouso. “O Guerreiro é meu passado, presente e futuro”.


PERFIL

Maria Margarida da Conceição é natural de Alagoas, Maceió. Conhecida como Margarida Guerreiro, ela chegou ao Cariri aos oito anos movida pela fé em Padre Cícero. Havia vivenciado as artes populares na terra natal e, residindo em Juazeiro do Norte, se dedicou ao Guerreiro — sequência de cantigas dançadas. Foi titulada como mestre da cultura em 2004. Hoje, reside na Casa do Idoso Associação Assistencial José Bezerra de Menezes, também em Juazeiro, onde conserva seus trajes, sua alegria e sua voz.

 

Entenda a série

O Vida&Arte inicia hoje uma série sobre os Mestres da Cultura residentes na Região do Cariri. Conhecidos como Tesouros Vivos, os mestres são diplomados pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult) em virtude do seu trabalho dedicado a manter, desenvolver e propagar as tradições culturais cearenses. Amanhã, será contada a história da mestre Maria Lourdes Cândido.

 

ISABEL COSTA

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