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Jornal

'Twin Peaks'. Lynch entre o bem e o mal

Série se reafirma como uma das produções que revolucionaram a TV. Agora, numa plataforma de streaming

02/09/2017 01:30:00
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Se tudo começou com um crime, o assassinato da jovem Laura Palmer numa pequena cidade habitada por tipos esquisitos, a temporada mais recente de Twin Peaks elevou o delito e todo o mistério que se seguiu a outro patamar: os eventos narrados nas duas primeiras histórias, um quarto de século atrás, se encaixam num universo ainda mais bizarro. Sim, David Lynch expandiu os efeitos de sua icônica produção. E o resultado é surpreendente.

O diretor fez isso dando um nó na audiência. E também na televisão, não as redes abertas ou fechadas, como nos anos 1990, mas no que há de mais contemporâneo em termos de difusão de conteúdos audiovisuais: as plataformas de streaming.

Enquanto 90% dos debates nas redes sociais se concentravam em dragões, zumbis e cavaleiros com espada, o cineasta, produtor e músico não apenas renovou a série, adicionando elementos narrativos e personagens que exploram o farto bestiário característico de Twin Peaks. Lynch foi além, numa mistura entre música e cinema, decantando o melhor do seu cinema.

Ao recuar no tempo para situar as peripécias do agente Dale Cooper, o cineasta – o próprio Lynch interpreta o sensacional Gordon Cole – conectou os testes atômicos da década de 1940 nos Estados Unidos, o surgimento de uma fenda no tempo através da qual criaturas espectrais assombram a realidade, o assassinato de Laura Palmer e o surgimento de um duplo, que não apenas assume o lugar de Cooper, mas também opera como uma força do mal.

Uma cópia de Cooper fundamentalmente perversa, portanto. Sem comprometer os segredos da nova temporada, é em torno desse amplo conjunto amplo de segredos que o americano trabalha agora: não mais o crime ao redor do qual um agente do FBI trava uma luta contra elementos sobrenaturais, causando um estranhamento da realidade. Na Twin Peaks versão anos dez do novo século, Lynch coloca Cooper às voltas com a própria impossibilidade de distinguir o bem do mal.

Henrique Araújo

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