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Exposição cancelada gera repercussão

Após protestos que acusaram mostra de desrespeitar crenças religiosas, Queermuseu foi encerrada

01:30 | 12/09/2017
Obra Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva de Fernando Baril (1996) está entre as obras mais criticadas na redes sociais REPRODUÇÃO
Obra Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva de Fernando Baril (1996) está entre as obras mais criticadas na redes sociais REPRODUÇÃO

Anunciada como “inédita no País” pelo Santander Cultural à época do lançamento, em agosto passado, a exposição Queermuseu, que estava em cartaz em Porto Alegre, foi encerrada um mês antes do previsto após protestos promovidos por grupos considerados conservadores como o Movimento Brasil Livre (MBL). Reunindo 270 trabalhos artísticos que destacam a diversidade de expressão de gênero e sexualidade, a mostra, com obras de nomes como Cândido Portinari, Ligia Clark e Leonilson, foi acusada de desrespeitar signos religiosos, entre outros pontos polêmicos. O cancelamento da exposição reacende debate sobre liberdade artística e política de financiamento.

“O fechamento da mostra autoriza e fortalece o silenciamento.

Corremos o risco de ver outras exposições sendo fechadas. Nossa autonomia e o diálogo estão censurados”, avalia a historiadora da arte Carolina Ruoso, doutora pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne.

Para a pesquisadora, o caso precisa ser analisado de modo ainda mais amplo. “Um banco não é uma instituição cultural, não é um museu. Ele (banco) está interessado em marketing, em mercado e cede a uma postura conservadora, porque está preocupado somente com os clientes”, pondera, afirmando ser preciso refletir sobre a “situação precária” das instituições culturais públicas no País e os impactos disso na relação entre artistas e o investimento privado.

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Por nota, o Santander Cultural pediu desculpas “a todos os que se sentiram ofendidos” pelo teor da obras. “Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”. Nas redes sociais, muitos comentários destacavam que os trabalhos eram “blasfêmias” e continham cenas de “zoofilia”.

Tony Boita, membro da Rede LGBT de Memória e Museologia Social, critica o crescente “conservadorismo” que vem atravessando a arte no País. “As pessoas não viram a exposição e tomaram um vídeo como única verdade. O que temos visto é que formas de promover a memória e ações de pessoas LGBTs estão sendo boicotadas”, aponta, destacando imagens “fora de contexto” que foram publicadas nas redes sociais. A Rede promoverá protesto hoje em frente à sede do centro cultural, em Porto Alegre.

O jornalista e escritor cearense Lira Neto escreveu publicação em sua página do Facebook dando destaque a obras de artistas como Pablo Picasso e Salvador Dali, que também abordam sexualidade e gênero, questionado o que motivou as reações a umas obras e a outras não. O post de Lira, porém, também foi denunciado por conter imagens de nudez. “O cancelamento da exposição revela o nível do obscurantismo que parece querer tomar conta do mundo, em pleno século XXI. É preciso denunciar tamanho retrocesso. Não me espanta a falta de informação e a ausência de repertório dos que protestaram contra as obras expostas. Estes, talvez, nunca tenham visitado uma galeria de arte”, avançou o autor, em entrevista ao O POVO.

Na páginas do MBL, os membros comemoram o cancelamento: “Tem gente que não sabe a diferença entre censura e boicote. Boicote é quando a sociedade repreende algo, que voluntariamente acaba cedendo, foi o caso do Santander. Ninguém é obrigado a nada. O banco poderia até continuar a exposição horrível lá”, postou o grupo. 

RENATO ABê