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Jornal

Vida e obra de Belchior

26/08/2017 01:30:00

Há duas grandes riquezas na biografia Belchior – apenas um rapaz latino-americano, do jornalista Jotabê Medeiros. A primeira é iluminar os anos pouco conhecidos do músico e compositor cearense no mosteiro dos capuchinhos, em Guaramiranga. Afinal, foi lá que Belchior forjou uma personalidade que depois se constituiria como uma marca d’água em seus trabalhos. Grande erudição, polarizações entre sagrado e profano e talvez a principal delas: o recolhimento como uma necessidade orgânica a partir da qual constrói uma plataforma de trabalho. O outro ponto positivo da obra, que flui numa linguagem fácil, quase telegráfica, deve-se um pouco ao acaso: prestes a ser lançada, contou a seu favor com certa comoção que se formou logo após a morte do artista, o que acabou franqueando o acesso de Jotabê a depoimentos importantes, como o do analista de Belchior e o de sua ex-namorada, ambos preciosos na tentativa de montar um quadro afetivo da vida e obra do poeta. O livro se destaca ainda pelo didatismo com que mapeia referências não apenas musicais, mas também literárias nas canções de Belchior. E, finalmente, também estabelece nexos entre as diversas fases da vida do cearense, como o simbólico desaparecimento, raiz de cisões familiares e refregas com amigos, que teriam se queixado - o jornalista enxerga elementos para esse autoexílio em várias passagens do trabalho do cantor e compositor. De passagem, claro, há espaço para as mumunhas e cutucadas que o grupo autointitulado “Pessoal do Ceará” vivia distribuindo entre si. É uma leitura crucial para compreender a centralidade de legado de Belchior na música brasileira.

 

Henrique Araújo é jornalista e mestrando em Literatura pela UFC

 

Adriano Nogueira

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