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Jornal

Pesquisa da Ancine descreve presença da mulher no cinema

Presença feminina no topo da hierarquia ou em posições técnicas do audiovisual é tímida, mas profissionais apostam em mudanças neste quadro

24/08/2017 01:30:00

Dados do boletim Raça e gênero no cinema brasileiro 1970-2016, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostram que a maior participação masculina no audiovisual é histórica: no recorte temporal referido, a porcentagem de filmes dirigidos e escritos por homens é de, respectivamente, 98% e 90% (no universo de ficções para adultos com mais de 500 mil espectadores).


Num recorte, mais próximo, a publicação Participação feminina na produção audiovisual brasileira (2016), da Agência Nacional do Cinema (Ancine), revela que, se na direção de arte as mulheres foram maioria no ano passado (53%), nas outras funções pesquisadas a participação feminina foi minoritária. A pesquisa partiu dos dados de gênero por função técnica das obras que tiveram emissão do Certificado de Produto Brasileiro (CPB), um registro obrigatório para obras audiovisuais.


Apesar dos números, as profissionais da área ouvidas pelo Vida&Arte apontam para movimentos de abertura, ainda que com desafios. A adaptação para o cinema do livro A cabeça do santo, da cearense Socorro Acioli, será comandada totalmente por mulheres, por exemplo. O projeto se concretizou a partir da produtora Ana Luiza Beraba, que trabalha com prospecção de adaptações de conteúdo editorial. “A agente da Socorro, Lúcia Riff, me apresentou a obra. Peguei para desenvolver o projeto com a Kiki Lavigne e o roteiro está sendo feito pela Adélia Jeveaux”, contextualiza. Somam-se ainda as produtoras Joana Mariani, que também dirigirá o filme, e Diane Maia. “Foi uma coisa espontânea”, responde Ana, quando questionada sobre o número de mulheres envolvidas — uma espontaneidade que ilustra as mudanças que a área vem passando.


A produtora cearense Caroline Louise, no entanto, encara os números do levantamento como uma demonstração da “realidade histórica da discriminação da mulher na sociedade”, mas aponta o crescimento da atuação feminina. “Acredito que a participação em funções técnicas vem crescendo. Mais mulheres estão dirigindo, roteirizando, fotografando”, afirma. “Observando meu próprio currículo, em média, a metade dos filmes que produzi foram dirigidos por mulheres e me orgulho disso”, ilustra. “Os cursos de formação têm dado oportunidade e acesso nessa construção igualitária dos profissionais de audiovisual, como também acho interessante ações como editais voltados para a realização feminina”, avalia.


Nas funções técnicas, a ausência de mulheres é mais marcante. Das 12 maiores bilheterias do cinema nacional de 2016, por exemplo, apenas um título teve uma mulher na direção de fotografia — o cearense O Shaolin do Sertão, de Halder Gomes, com Carina Sanginitto. “Meu maior desafio no início foi justamente pensar que queria ser diretora de fotografia sendo mulher”, conta. Carina teve oportunidades na área junto ao marido, o diretor Gerson Sanginitto, e a Halder, que “teve a coragem de contratar uma mulher como diretora de fotografia” e com quem estabeleceu parceria. Carina é positiva quanto ao futuro. “Acho que vai melhorar. As equipes de câmeras tem excelentes assistentes e elas vão abrir caminho. As mulheres vão começar a ocupar cada vez mais espaço”, acredita.


Os desafios para concretizar essa ocupação são muitos, como conta Luly Pinheiro, estudante de Cinema e Audiovisual da UFC, que tem interesse pela fotografia. “Não se fala disso em salas de aula. Entendemos na vivência. Na lógica hierarquizada do cinema, para chegar à direção de fotografia, é preciso passar pelas funções de segundo e primeiro assistente, que demandam esforço físico, e a mulher é desacreditada. Muitas desistem por não ter oportunidade de mostrar trabalho”, exemplifica. “Tenho tentado inventar outros caminhos para tornar isso possível, seja desenvolvendo projetos mais autorais ou em parceria com outros artistas. O importante é não deixar que as dificuldades nos paralisem”, afirma. “Os problemas num set de cinema são os mesmos que a gente sente na sociedade, é sistêmico. A primeira coisa que nós mulheres podemos fazer é não desistir e ocupar esses espaços ditos ‘masculinos’, nos colocarmos enquanto sujeitos nesses lugares, nos assumirmos enquanto fotógrafas, técnicas, eletricistas, motoristas, mecânicas, engenheiras, o que quer que a gente queira ser. Mostrar que existimos, sim, nesses espaços”, confia Luly.

 

MULTIMÍDIA


Publicação da Ancine e outros levantamentos da agência:

oca.ancine.gov.br/publicacoes

 

Boletim do Gemaa:

goo.gl/Umkgu1

 

João Gabriel Tréz

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