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Don L inicia trilogia autobiográfica com EP Roteiro pra Aïnouz vol. 3

Cearense radicado em São Paulo, rapper lança o EP Roteiro Pra Aïnouz vol.3 e inicia trilogia que reconta sua trajetória. Em nove faixas, o artista critica atual momento da música brasileira

01:30 | 03/07/2017
Ex-membro do Costa a Costa, rapper Don L junta suas referências em disco que traz convidados como Fernando Catatau e Gustavo Portela DIVULGAÇÃO
Ex-membro do Costa a Costa, rapper Don L junta suas referências em disco que traz convidados como Fernando Catatau e Gustavo Portela DIVULGAÇÃO

Já na primeira música do novo EP, o rapper cearense Don L dá o recado: não tem interesse em frequentar a “sauna hype do Caetano” – numa referência a aproximação dos rappers com artistas da MPB. “Se é ‘MPBoy’, a grana vem igual passarinhos voando, colando no Leblon vez em quando”, versa, citando a música Passarinhos, parceria do Emicida com Vanessa da Mata. Esse é o tom de Roteiro Pra Aïnouz vol.3, um disco que retrata – de modo explícito – a visão de Don L sobre a música nacional. Mas vai além da metalinguagem e fala de fé, sexo, busca pela juventude e migração Brasil afora, entre tantos temas.

O título da segunda obra do ex-membro do grupo Costa a Costa faz referência ao cineasta cearense Karim Aïnouz. O trabalho, sucessor de Caro Vapor (2013), tem nove faixas, mas não está sendo encarado por Don L como um “álbum cheio” e, sim, como EP (“Eu tô nesse jogo por um bom tempo/ e eu nem gravei um disco”, canta na faixa Fazia Sentido). O trabalho compõe uma trilogia às avessas, que, segundo o artista, passeará entre o que ele vive agora, a transição entre Ceará e São Paulo e de onde ele veio. Confira entrevista:

O POVO – Como a obra cinematográfica de Karim Aïnouz dialoga com o seu novo trabalho?

Don L – O Karim tem uma personalidade, uma densidade na obra dele que você pode transformar em verbo. Teve uma hora que a minha vida “ainouziou” e, pra mim, foi como não caber mais em mim nem em nenhum lugar, e ter dado voltas e passar a ser um estrangeiro não só onde quer que eu vá, mas também no lugar de onde eu vim. É também, ao mesmo tempo, nada ser totalmente estranho ou totalmente novo, porque você simplesmente já viu demais, e as coisas parecem ser cíclicas e imutáveis.

OP – Em Eu não te amo, você destaca ter deixado o Nordeste sem “chapéu de palha, nada clichê”. Você acredita que esse estereótipo do nordestino ainda se sustenta Brasil afora?

Don L - Sim, de variadas formas. Mas as pessoas tendem a colocar as outras e a si próprias dentro de uma embalagem. Tudo é produto e o pressuposto é que as pessoas são idiotas. A gente vive num mundo onde as pessoas são idiotizadas umas pelas outras.

 

OP – Em Fazia Sentido, apesar de deixar claro que não está “tirando Criolo e Emicida”, você critica o contexto da música brasileira que esses artistas do rap estão inseridos...

Don L – Eu acho massa o Criolo e o Emicida fazerem o que eles fazem. Eles sobrevivem como podem dentro de um contexto. A construção desse contexto já envolve muito mais gente e já é uma estrutura parecida com o que a gente tem na política brasileira. Ainda é basicamente o Brasil Colônia, a sacanagem pseudo-cristã das oligarquias dos senhores de escravos. Falo sobre a mediocridade desse contexto de pessoas com pouca visão, sempre com o máximo de oportunismo barato e zero investimento em capital especulativo artístico de qualidade.

OP – Você traça diálogo com a poética de Belchior na música Cocaína. A trajetória dele te inspira de alguma maneira?

Don L – O Belchior tem algumas das obras mais densas da música brasileira, rica de sentido, de poesia e coração, e de sangue mesmo, como ele próprio diz em uma delas. Infelizmente ele também foi vítima dessa mesma mentalidade medíocre da qual a gente falou na pergunta anterior. A partir de certo momento reduziram o cara ao cantor de voz e violão, e tiraram a sagacidade, a sonoridade, a bateria na cara, e a porra toda genial que tinha nos primeiros discos dele. Eu gosto dessa fase anterior à tentativa de pasteurização.

OP – Entre as muitas colaborações do disco, você convidou músicos cearenses como o Fernando Catatau e Gustavo Portela. Como ocorre atualmente seu diálogo com a cena musical do Estado?

Don L – O Guga é um puta baixista. Tem o Oscar Arruda que colaborou comigo na mixtape Caro Vapor, e que pretendo ainda trampar com ele no futuro. O Catatau faz uma das guitarras mais autênticas que conheço na música mundial. Meu parceiro de Costa a Costa, o Nego Gallo, está com um disco pronto que é uma das obras de rap mais foda que eu já ouvi na vida. Tem um moleque novo chamado Frieza, e o Côro Emici, ali da Barra do Ceará, que são grandes talentos também.

OP – Você se considera um rap caótico?

Don L – Não, é o contrário. O papel da música, pra mim, é fazer o trabalho que Deus não terminou, espero que por algum motivo especial, de pôr ordem no caos, e tentar produzir sentido. Caótico é esse mundo onde a presidente de um país é deposta por corrupção por corruptos. Onde os ignorantes têm opiniões formadas sobre todas as coisas das quais eles não têm o mínimo de conhecimento. Um mundo que mente pra si mesmo de todas as formas imagináveis. A vida precisa fazer sentido em meio a tudo isso, e as pessoas precisam sentir a necessidade dessa busca, antes que elas passem a acreditar em algum fascista que se proponha a fazer isso por elas.

 

SERVIÇO

 

Roteiro Pra Aïnouz vol.3

9 faixas

Independente

Ouvir e baixar: onerpm.lnk.to/DonL

 

RENATO ABê