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Jornal

Crítica literária. V&A leu: Manual da Faxineira, de Lucia Berlin

11/07/2017 01:30:00
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Onde pairava Lucia Berlin? Como a personagem de um de seus contos, certamente a escritora norte-americana estava presa no limbo. No buraco negro onde ficam depositados os autores de texto incrível que não têm apelo da crítica especializada ou do mercado editorial. Lucia encanta qualquer leitor pelo texto cínico. Ela não tem medo de descortinar realidades - e mostrar aspectos cruéis da própria vida e da vida dos outros.


Nascida em 1936, no Alaska, e filha de pai minerador, passou a infância peregrinando de cidade em cidade. Da meninice pobre, Berlin trouxe para o texto a necessidade de autoafirmação diante das outras crianças. Muitos de seus contos se passam em escolas.


Foi preciso mais de uma década para que o mundo descobrisse Lucia Berlin. Morta em novembro de 2004, a escritora permaneceu longe dos holofotes. Somente com o relançamento de seu Manual da Faxineira, que chega ao Brasil pela Companhia das Letras, o público e a crítica finalmente se encontraram com os textos da norte-americana.


Nas décadas de 1980 e de 1990, Lucia já trabalhava com o conceito de autoficção. As personagens de seus contos dialogam com a vida da própria autora. Para sustentar os quatro filhos - frutos de três relacionamentos diferentes -ela precisou trabalhar como recepcionista, faxineira, telefonista e até como professora. Cuidou das crianças praticamente sozinha em uma época na qual o divórcio causava repulsa nas pessoas.


Os desafios que precisou enfrentar como mãe solteira e trabalhadora estão vertidos nos contos. Manual da Faxineira fala sobre medos cotidianos de todos nós. Não ser aceita pelos alunos, não corresponder aos anseios dos filhos, não atender as expectativas dos avós. É um livro que faz rir, mas com pontas de julgamento e crítica.


Não bastassem todos os problemas, Lucia Berlin herdou no sangue a tendência ao alcoolismo. Circulou por hospitais e clínicas. Precisou conciliar a criação dos filhos com a rotina de tratamentos. Passou por reviravoltas até alcançar a “calmaria” nos últimos anos de vida, quando se estabeleceu como professora universitária. Mas a escritora é mais do que a mulher de vida problemática. Tem textos que urgem, gritam, urram, batem. Ela escancara verdades e mentiras, descortinando os pudores mais intrínsecos.


Não sabemos quantas Lucias estão escondidas. O fato é que sua existência nos prova que outras autoras podem ser descobertas, apreciadas, amadas e, principalmente, lidas como merecem.


No Brasil, como exemplos, temos as extraordinárias Ana Cristina Cesar (1952-1983) e Carolina Maria de Jesus (1914-1977) - que, após anos vivendo à margem do mercado editorial, se tornaram conhecidas do grande público e ganharam novas edições de suas obras. Não se sabe até quando teremos autoras mulheres (geralmente negras e/ou pobres) ficando nos cantos baixos das prateleiras. Meu coração de leitora quer que elas possam aparecer o mais rápido possível e que sejam surpresas tão boas quanto Lucia Berlin.


SERVIÇO

 

Manual da Faxineira

Lucia Berlin

Companhia das Letras

Tradução: Sonia Moreira

Preço: R$ 64,90

 

Isabel Costa

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