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Jornal

Cearense é selecionado na Escola do Teatro Bolshoi

Com 15 anos, Israel Mendes é um dos oito aprovados na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. O desafio dele agora é conseguir apoio financeiro para se manter em outra cidade

29/07/2017 01:30:00
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História da arte, dança clássica, piano e iniciação à pesquisa. Estas são algumas das muitas disciplinas que José Israel Mendes da Rocha vai ter que estudar a partir de agora. O cearense de 15 anos foi um dos oito aprovados na audição realizada esta semana para a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, durante o 35º Festival de Dança de Joinville. A única filial no mundo da tradicional escola russa recebeu 430 candidatos, entre brasileiros e estrangeiros, que já tinham algum conhecimento em dança para participar da seleção.


Morador do Parque São José, Israel começou a praticar dança com seis anos, em projetos sociais do bairro e sempre sonhou com a dança clássica. “Nunca tive acesso ao balé clássico nos cursos gratuitos e também tem muito preconceito de meninos fazerem isso. Quando conquistei a confiança dos meus pais, caí de cabeça nessa dança”, lembra. Treinando a modalidade há apenas um ano, ele fala como foi difícil a transição. “Eu estava acostumado com passos de danças contemporâneas, que trabalham a desconstrução do corpo. Foi um choque a mudança”, admite.


Primeira audição no Bolshoi, primeira vez no festival e o maior troféu: uma vaga entre tantos candidatos. “A ficha caiu agora. Não sei como farei. Não tenho dinheiro para mudar de cidade e me sustentar aqui”, fala Israel ao ser questionado se a mudança ocorre este ano ainda ou no início de 2018. Só uma certeza: “A dança é meu meio de expressão, crio asas no palco. Quero seguir carreira e me profissionalizar”, assegura ele.

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Seleção

A seleção para o Bolshoi é feita por etapas, em turmas divididas por idades. Na primeira sala, aquecimento e preparação de figurino. Na sala ao lado, cinco professores, russos e brasileiros, e o passaporte para a realização do sonho. Um piano com uma convidada - sim, a música é ao vivo e a coreografia passada na hora.

 

Na primeira aula, passos na barra. Depois, o centro (sem a barra), seguida de ponta e, finalmente, o exame médico. Para os que não são selecionados, as palavras da coordenadora de produção e seleção da Escola Bolshoi, Sylvia Albuquerque, servem como incentivo. “A carreira de uma bailarina é feita de muitas audições. Que os ‘nãos’ sirvam de escada para o sim”.


A Escola já formou 287 alunos, dos quais 217 estão empregados nas principais companhias de dança do País e do mundo. “Nosso alto índice de empregabilidade mostra a credibilidade do nosso trabalho”, conclui Sylvana.


Vitória

Vitória Regina Ferreira da Silva, 13 anos, também veio de Fortaleza para tentar uma vaga na sonhada escola. De poucas palavras e olhar tímido, a menina vendeu pulseirinhas para ajudar a mãe, Ana Karina, que fez rifas no trabalho, a completar o dinheiro da viagem. Infelizmente não passou, mas quer voltar ano que vem. “Esqueço de tudo quando estou dançando. Meu sonho é estudar no Bolshoi e ser bailarina profissional”, afirma ela.

Quando estava grávida, Ana Karina foi diagnosticada com um tipo de câncer na região do pulmão e os médicos disseram que ela precisaria abortar ou não sobreviveria. Karina resolveu só começar o tratamento quimioterápico após o parto, prematuro. Foram dois anos até a cura e uma filha com saúde frágil. Por isso, o balé surgiu para Vitória, aos três anos, para ajudar no condicionamento físico. Com dez, ela foi descoberta por uma escola de Fortaleza, onde ganhou bolsa para se aprofundar na técnica e incentivo para tentar dar saltos maiores.


Veterano

No último ano da Escola, Leonardo Germano faz o caminho inverso dos novatos, se prepara para a formatura. “Minha família não me apoiava. Meu tio pagava um curso para mim, mas não sabia que era de balé”, conta ao admitir que isso serviu de incentivo. “Esse sentimento me motivou a querer provar que eu tinha talento”.

 

O cearense confessa que descobriu o balé tarde. “Comecei a fazer balé com 15 anos, tive que correr atrás do tempo perdido, por isso fazia todas as aulas que podia”. O Bolshoi veio dois anos depois, com ajuda de uma amiga, a produtora Dênia Carvalho, que o incentivou a fazer a audição também de julho. A família também foi se apaixonando pela arte e hoje é quem ajuda o jovem a se manter na cidade da dança.

Lilian Amaral

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