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Jornal

As duas pontas do Brasil na obra de Belchior

Pesquisadora da USP analisa a visão do imigrante nordestino nas letras do cantor cearense, morto em 30 de abril deste ano no Rio Grande do Sul

31/07/2017 01:30:00
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Josely Teixeira

Especial para O POVO

vidaearte@opovo.com.br

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Ao lermos o trecho da Pequeno mapa do tempo de Belchior, gravada em 1977, já pudemos avistar quatro décadas antes o prenúncio do lugar definitivo de descanso do compositor nascido na cidade de Sobral, que aos 16 anos, em um primeiro passo migratório, teve de mudar para a capital do Estado (a Estrela do Norte?) com toda a família para dar continuidade aos estudos no Liceu do Ceará.


Do mesmo modo, os versos de Princesa do meu lugar “Se me der vontade de ir embora/ vida adentro/ mundo afora/ meu amor não vá chorar./ Ao ver que o cajueiro anda florando/ saiba que estarei voltando/ princesa do meu lugar”, de 1973, também antecipavam ao ouvinte um desejo de retorno de Belchior à sua terra natal, conhecida pelo epíteto de “A princesa do Norte”. A menção à “Estrela do Norte”, seja Fortaleza, seja Sobral, aparece igualmente em Meu cordial brasileiro” (1979), em parceria com Toquinho: “Menina/ a Estrela do Norte não saiu do lugar.”.


À semelhança do homem fictício de dentro das suas canções, a pessoa Belchior, em uma segunda experiência de migração, no início da década de 1970 também foi obrigada, jovem, a descer do Norte (do Nordeste) pra cidade grande, mais especificamente, no olhar do sujeito que migra, pro “São Paulo violento” e pro “Rio que engana”, como retrata de maneira dorida a emblemática Fotografia 3x4, de 1976.

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Nesse movimento de saídas e chegadas e que imbrica a vida da pessoa e do artista à vida de seus personagens, o Norte, o interior, o Sertão e o Nordeste são temáticas recorrentes, de A palo seco a Baihuno, no compositor cujo principal protagonista é sem nenhuma dúvida o “rapaz latino-americano vindo do interior”.


No entanto, a obra de Belchior, que em nenhum momento citou nominalmente Sobral em suas canções, fala do Norte, sobretudo como um lugar de partida, para o qual o sujeito que de lá saiu demonstra a vontade de voltar, mas nunca consegue. Sempre é impedido, como comprovam diversas passagens da narrativa musical criada por Belchior.


Essa impossibilidade de voltar para o Norte é descrita, por exemplo, em Monólogo das grandezas do Brasil (1982): “Vou voltar pro norte semana que vem./ Deus já me deu sorte/ mas tem um porém/ não me deu a grana pra eu pagar o trem”.


Se, na perspectiva de Belchior, por um lado o homem migrante, de pés cansados e feridos e que sofre na metrópole, sonha em retornar ao seu lugar de origem, por outro esse mesmo homem mostra encantamento pelo “Sul-maravilha” e resistência, segundo se lê em Monólogo das grandezas do Brasil (“- Eu vou pra São Paulo e Rio (Eldorados de além - mar). A estrada é uma estrela pra quem vai andar.”) e no clássico Como nossos pais, de 1976. Na canção o personagem afirma categoricamente não querer voltar para o Norte: “Digo que estou encantado com uma nova invenção/Vou ficar nesta cidade/Não, não vou voltar pro sertão/Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação”.


Esse personagem valente permanece na cidade-grande e parece que de fato nunca retorna ao Norte. Décadas depois de chegar na metrópole, manda através dos amigos notícias aos que ficaram, como testemunha Baihuno (1993): “Já que o tempo fez-te a graça de visitares o Norte/ leva notícias de mim”.


Como se vê, Norte e Sul (mais propriamente Nordeste e Sudeste) são na produção de Belchior as duas faces da mesma moeda que constitui sua obra verbomusical. Mais do que abordar dois espaços distintos, o próprio Belchior em Conheço o meu lugar (1979), talvez tenha elucidado o conflito dicotômico que separa o Brasil em dois e que ele elegeu como tema fundamental de sua música: O “Nordeste é uma ficção!”. O “Nordeste nunca houve!”. Pela leitura da trajetória de Belchior, o que se percebe é que aquilo que o cearense buscou na verdade em sua epopeia de artista e de pessoa foi juntar as duas pontas do Brasil.


Foi exatamente nesta dinâmica, provando a força da lei da gravidade brasileira, que por sua realidade socioeconômica puxa para baixo os brasileiros da parte de cima do mapa, que Belchior, em seu terceiro movimento de migrante, desceu um pouco mais e foi morar, de maneira quase que inteiramente reclusa, na região Sul do País, naqueles que seriam os seus últimos anos de vida.


Feito serpente que morde a própria cauda, em cena que encerra suas ações gloriosas e eventos extraordinários, o “marginal bem-sucedido e amante da anarquia” Belchior voltou para o Norte, para o sertão de onde saiu. E hoje descansa no Parque da Paz.


Josely Teixeira Carlos é professora de linguística, pesquisadora da USP, com teses de mestrado e doutorado sobre Belchior

 

Adriano Nogueira

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