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Jornal

A cultura do Cariri em constante ebulição

Importante vetor para transformação social e possibilidade de resistência, a cultura é um instrumento pulsante na região do Cariri

11/07/2017 01:30:00
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O Cariri respira e vive cultura. Seja por tradição popular ou formação acadêmica, diversos agentes culturais estão reunidos na região. Literatura, música, poesia, cordel, dança, teatro, pintura e tantas outras formas de arte são abundantes. No último mês de junho, foi inaugurado, no Crato, o primeiro Escritório Regional da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult). Outras instituições como o Centro Cultural do Banco do Nordeste (CCBNB), o Serviço Social do Comércio (Sesc) e a Universidade Regional do Cariri (Urca) colaboram para o fomento do cenário cultural na região.


Esse cenário atraiu a atenção de Edceu Barboza, 30, ator e produtor do grupo Ninho de Teatro e, atualmente, professor substituto do curso de Teatro da Urca. Acompanhando eventos como a Mostra Sesc Cariri de Culturas, o ator - que estudava teatro, desde a adolescência, em Acopiara - percebeu que a região tinha “uma coisa a mais”. Há 12 anos morando no Cariri, Barboza se formou em Licenciatura em História e, em seguida, em Teatro, na Urca. “Não vou julgar se era melhor ou pior (em Acopiara), mas era como se eu percebesse um movimento de grupo mais organizado que partia do Cariri, inclusive as questões poéticas, as escolhas estéticas”, conta. Em sua pesquisa acadêmica, o ator observou mudanças no cenário artístico do Cariri e, segundo ele, algumas se deram pela atuação de instituições como Sesc, CCBNB e Urca.

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Para movimentar a cena

Para Barboza, a promoção de espetáculos e eventos pelo Sesc são ações importantes para a dinamização do contexto cultural. “Ver como artistas de outros estados e regiões estão pensando a poética do teatro é aprendizado, fora as oficinas”, comenta. Atuando em Juazeiro do Norte desde 1966 e no Crato desde 1972, o Sesc realiza parcerias com diferentes instituições locais, entre elas 16 ONGs, a Urca, a Fundação Casa Grande e outras.

 

Em 2016, o Sesc promoveu 1.246 espetáculos e shows; 66 mostras, exposições e concursos; e 33 turmas de cursos. Para Chagas Sales, gerente de cultura do Sesc Ceará, assim como os parceiros, a instituição impulsiona a cultura local, que chama atenção de todo o País tanto pela cultura popular quanto pela arte contemporânea. “Nossa programação é um reflexo do potencial (do Cariri)”, afirma.

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Já o CCBNB, atuante na região há 11 anos, impulsionou, segundo o ator, a profissionalização dos grupos de teatro, pois os levou a providenciar CNPJ e registro profissional. “Você tem que estar atento a uma nova configuração interna, um pouco mais burocrática, mas necessária. E isso contribui para amadurecer os processos de produção”, afirma. O equipamento realiza, em média, 750 atividades culturais por ano e com público mensal aproximado de 13 mil pessoas.


Ricardo Pinto, gerente do CCBNB Cariri, destaca o incentivo aos artistas locais e à ida ao Cariri de manifestações artístico culturais de outras regiões, que ajudam “na oxigenação” do fazer local. “Por conta de uma ausência do poder público e da pouca importância dada pela indústria cultural de massa, acabamos tendo esse papel de oferecer para a comunidade local a possibilidade de usufruto dessa cultura (assim como) aos artistas locais a possibilidade (de) terem sua arte fruída para que seja geração de renda”, afirma.

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Outra instituição que promove formação artística é a Associação de Dança Cariri, criada pelo bailarino Alysson Amancio em 2007. A associação oferece aulas não só para quem almeja ser bailarino profissional e professor, mas também recebe o público que quer aprender as linguagens sem fins profissionais. “O papel da associação é mais de formação, por isso nós trazemos mais cursos específicos aos profissionais daqui”, afirma Luciany, ressaltando que vários alunos já ministram aulas.


Fomento à arte

Há 12 anos trabalhando com artes plásticas, Lupeu Lacerda afirma que a cena caririense “sempre foi absolutamente fantástica” em relação à presença de artistas. Para ele, porém, ainda são necessários investimentos por parte do poder público. “É urgente que as pessoas ditas responsáveis por esse grande manancial de cultura popular e arte que é o Cariri comecem a pensar no futuro”, afirma. O ator Edceu Barboza acrescenta que, apesar das poucas mudanças que percebe em relação a esse fomento, a classe artística vem discutindo o tema cada vez mais. “Permanece esse lugar de resistência e de atitude política dos artistas”, avalia.

 

De acordo com Dane de Jade, coordenadora do Escritório Regional da Secult no Crato, a política de editais representam uma ferramenta de fomento imediato para distribuição democrática dos recursos voltados para a cultura. Porém, “ainda temos uma lacuna (...) porque não se consegue atingir toda uma população. Mas você vai buscando outras possibilidades de fomento e de ação para tornar isso mais compartilhado”, afirma. Ela aponta que a chegada do Escritório à região se deu pelo reconhecimento da sua “efervescência cultural”, como é o caso do número de mestres e mestras da tradição popular. “Hoje, sabemos que a cultura é um bem tão importante quanto a educação, a saúde e a ação social.”


O papel da Universidade

A criação dos cursos de artes foi um dos motivos que fez Barboza apontar a Urca como impulsionador da cena cultural caririense. Inaugurado em 2008, o Centro de Artes Urca atendeu à necessidade de formação do artista como professor e pesquisador. Segundo Fábio Rodrigues, diretor do centro, precisava-se também de arte-educadores nas escolas, fator que considera essencial para mudanças sociais. “Quando tenho os dispositivos necessários para decodificar o objeto artístico (...) passo a significar a mim nesse lugar de pertencimento, de buscas por melhorias, de tentativa de transformar essa realidade em que me encontro”, explica.

 

Segundo o diretor, no centro, há 210 alunos matriculados nos dois cursos de licenciatura, em Artes Visuais e Teatro, e há previsão para o início da licenciatura em Dança em 2018. Além disso, conta com dois cursos de pós-graduação, e cinco programas e 20 cursos de extensão. Segundo o diretor, o Centro de Artes é “extensão por natureza” e as produções dos estudantes não são desenvolvidas para a universidade, mas para chegarem à comunidade.

 

SAIBA MAIS

 

Ainda sobre a cena cultural do Cariri, leia amanhã no Vida&Arte uma entrevista com o poeta, cordelista e Mestre da Cultura Luciano Carneiro


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Veja a matéria na íntegra na revista O POVO Cariri 11

digital.opovo.com.br/opovocariri

 

Joyce Oliveira , Gabriela Custódio

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