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Orquestra da Sociedade Musical Tianguaense pode encerrar atividades

Com 32 anos, Orquestra da Sociedade Musical Tianguaense está prestes a encerrar atividades por falta de verbas

10/06/2017 01:30:00
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Após 32 anos promovendo o ensino de música para crianças e adolescentes, o projeto da Sociedade Musical Tianguaense (Somut) está prestes a acabar. Há seis meses sem receber a verba vinda de um convênio com a Prefeitura de Tianguá, única fonte de recursos, Ângelo Moita, maestro e fundador do projeto, conta que não há mais como manter as atividades. “Fica inviável manter um projeto assim, sem recursos”.


Atualmente, cerca de 150 crianças têm aulas de instrumentos de sopro na Somut. Os que mais se destacam compõem a Orquestra Filarmônica Dr. Edvaldo Moita, que tem 50 músicos. “Nós poderíamos ter uma orquestra bem maior. Mas, como sempre dispomos de só um ônibus para nos levar às apresentações, só colocamos 50 alunos mesmo”, explica Ângelo.


Por meio do convênio, a Orquestra se apresentava nas festividades de Tianguá, viajava pelo Estado e recebia bandas de outras cidades para compartilhar as apresentações. As aulas continuam, mas as apresentações pararam. Apesar de todo o histórico da orquestra, Raimundo Nonato Portela, secretário de Cultura de Tianguá, explica que “a lei não perpetua projeto. Não que é porque tem tantos anos que garante verba”. Sobre o corte na verba de R$ 11 mil mensais, ele explica que “os repasses estão caindo, por isso os gastos estão sendo analisados e revistos”.


“Há um projeto de lei na Câmara para regulamentar esse edital, porque ainda temos o Centro Cultural Dom Aloísio Lorscheider, que tem o mesmo trabalho. Estamos entre um e outro”, diz Portela. O Centro Cultural, inaugurado em 2013, faz parte da Diocese de Tianguá e oferece aulas de flauta, teclado, violão e outras formações artísticas. O secretário afirma que não há previsão para a votação do projeto de lei. “Depois que for votado, tem 15 dias para divulgar o edital. Mas não sabemos quando será votado. Depende da agenda da Câmara”.


Ângelo conta que havia a proposta de transformar a Orquestra em patrimônio cultural de Tianguá, mas Portela explica que “isso não depende do Município. Depende do Estado e da União também”.


As aulas na Somut são ministradas por três professores que eram pagos por meio da verba que o projeto recebia. Desde o começo, as lições são passadas na casa do próprio maestro. “Se eu fosse pagar um local só para ter as aulas, ia boa parte da verba”, conta Ângelo. Além disso, após as aulas, todos os alunos são deixados em casa por ele em seu veículo particular. “A gente faz isso porque muitos deles moram em áreas de risco. Alguns vinham e quando voltavam para casa eram assaltados no meio do caminho. O nosso objetivo também era ter um transporte”, comenta Iolanda Moita, presidente da Instituição.


Nesses 32 anos, cerca de 4 mil alunos passaram pela Somut. O saxofonista Helixandré Segundo foi um deles. “Antes eu tinha muito tempo ocioso, sem embasamento cultural e acabei me envolvendo com más companhias. Mas a maneira como o Ângelo dava as aulas, como puxava pela nossa responsabilidade, me abriu os olhos”. O músico entrou com 12 anos no projeto e ficou até os 17. Hoje, aos 20 anos, ele está concluindo o curso de música do campus de Sobral da UFC. “O que eu aprendi acabou despertando em mim o lado professor, de poder passar essa mensagem a pessoas”.


Helixandré chegou a viajar para o Canadá e foi bolsista em um laboratório de música da Simon Fraser University. “Eu viajei pela UFC, mas eu só teria conseguido isso, só teria entrado no curso se tivesse passado pela Somut. Meu propósito era dar continuidade nesse trabalho. Mas, se acabar, é uma oportunidade que muita gente não vai ter. É uma perda social e cultural muito grande”.


Vitor Araújo, trombonista, também passou pela Orquestra. Além de aprender a tocar, ele teve a oportunidade de ensinar outras crianças por meio de um projeto de extensão do grupo. “Eu ensinei flauta doce nos bairros da periferia de Tianguá por quase um ano e nunca tinha dado aulas para crianças”, diz.


Hoje, aos 22 anos, ele cursa o terceiro semestre de Música e já recebeu convites para tocar na Rússia. “Esse projeto não ensina só música, fala também de respeito. Se parar, vai ser uma grande perda pro município. Aquelas crianças que já estão iniciando não vão mais ter essa oportunidade”, completa.

 

Larissa Pacheco

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