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Jornal

Dalí sob análises

Professor do curso de Letras da UFC aponta equívocos na exposição Dalí: A Divina Comédia, em cartaz na Caixa Cultural até 2 de julho

14/06/2017 01:30:00
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Desde o fim de abril, a Caixa Cultural Fortaleza recebe o encontro entre o poeta italiano Dante Alighieri e o pintor espanhol Salvador Dalí. Mostrando ao público fortalezense o olhar de Dalí sobre a obra máxima do poeta a partir de ilustrações, a exposição Dalí: A Divina Comédia já recebeu, segundo a Caixa Cultural, 5 mil visitantes.


O professor Yuri Brunello, que atua na graduação e na pós-graduação em Letras da UFC, foi um desses visitantes. Além de ter sido tomado pela beleza das gravuras, ele, como pesquisador, também reparou em uma série de problemas e erros práticos na mostra. “É uma iniciativa que merece mil elogios. Porém, do ponto de vista científico, acho que ela pode ser melhorada ainda mais”, ressalta.


Entre os problemas apontados pelo professor, está a ausência da indicação de qual tradução brasileira foi utilizada na exposição. “Dante foi traduzido no Brasil até por Machado de Assis. Pesquisando e comparando, vi que a tradução é a de Ítalo Eugênio Mauro, que até ganhou o Jabuti pelo trabalho”, explica Yuri. Há também o fato da utilização, segundo pesquisas do professor, de um ensaio defasado no catálogo: a página oito recebe um texto da pesquisadora Ilaria Schiaffini publicado em 2007, que diz que Dalí foi contratado pela Secretaria Italiana de Educação para o projeto de ilustrações; no entanto, a autora, em 2011, publicou um novo texto no qual verificou que ele foi contratado pela Imprensa Nacional.


O professor aponta que a exposição também peca ao não esclarecer que há discordância quanto à afirmação de que cada gravura de Dalí corresponde a um canto de A Divina Comédia. O processo artístico para a realização dessas gravuras começou financiado pela Imprensa Nacional Italiana, mas a publicação em livro que estava prevista acabou sendo cancelada. Já em 1960, uma editora francesa adquire os direitos, publicando anos depois um livro com as obras. “O problema desse livro é que os versos de Dante não estão em perfeita ordem com as imagens representadas, e essa exposição parece que reflete essa incongruência entre os versos colocados e as imagens”, diz Yuri.


A ordem foi mudada outra vez, em 1964, quando uma editora italiana compra os direitos e publica um novo livro reconstruindo a disposição das imagens e dos versos. “Entre a versão italiana reconstruída e a versão francesa existe 30% de diferença das correspondências entre canto e imagem. O público deve estar ciente disso”.


Questionada por O POVO, a Arte A Produções, que responde pela mostra no Brasil, agradece as críticas positivas. A empresa se compromete a corrigir e reimprimir as legendas com erros de tradução, disponibilizar na exposição e no catálogo a autoria da tradução (que é a de Ítalo Eugênio Mauro), atualizar o artigo do catálogo e explicitar para o público que não há sempre correspondência entre a ordem e a substância dos cantos (ver quadro com apontamentos completos).


DESCOMPASSOS


Legendas dos cantos XI e XIII do Inferno

No Canto XI, lê-se “À beira do sétimo céu”, quando o correto seria “À beira do sétimo círculo”.

Já no Canto XIII, lê-se “Homens foram, e paus só remanentes...”, sendo o correto “Homens fomos, e paus só remanentes...”.


indicação da tradução

”Cada tradutor coloca em evidência um aspecto, além de ter um estilo próprio”, afirma o professor. “É interessante que o visitante tenha informações acerca da tradução que o acompanha nas legendas”.

 

Atualização do catálogo

O catálogo traz ensaio da pesquisadora Ilaria Schiaffini de 2007. Ela, no entanto, publicou outro, em 2011, corrigindo informações do anterior.

Correspondência entre cantos e gravuras

Nas impressões posteriores à finalização das obras, datadas da década de 1960, as ordens de cantos e gravuras são diferentes, o que justifica alguns desarranjos. Pesquisadores contemporâneos, inclusive, se debruçaram em tentar estabelecer a correspondência “real”, como, segundo pesquisa de Yuri Brunello, o alemão Wolfgang Everling.

 

João Gabriel Tréz

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