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O Vida&Arte conta a história da montação em Fortaleza

Expressão presente na cena fortalezense desde a ditadura militar, o travestimento se reinventa no cotidiano da Capital até hoje. O Vida&Arte traça um panorama destas décadas de mudanças

01:30 | 08/04/2017
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O funcionário público Ricardo Dione e o estudante de Jornalismo Cláudio Lucas Abreu enfrentaram contextos diferentes para conseguir se expressar, respectivamente, como as personas Dayany Princy e Stella Monstra. Apesar de diferenças — um se afirma transformista, o outro, drag queen —, ambos se unem por serem parte da cena da montação de Fortaleza. As performances artísticas de gênero ocorrem na Cidade, no mínimo, desde os anos 1970, partindo da marginalidade e do gueto para, hoje, serem mais aceitas e presentes na Capital.


Boate Casablanca

Juliana Justa, doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e autora do livro Ela é o show: performances trans na capital cearense, diz que os primeiros registros de montação em Fortaleza datam das décadas de 1970 e 1980. “Os anos de chumbo da ditadura militar tentaram minar concursos e boates, mas não tiveram tanto sucesso. No começo da década de 1980, foi inaugurada no Centro a Boate Casablanca, famosa por impulsionar e estimular shows de transformistas e travestis (na época, não se falava em drag queens)”, detalha.

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Foi justamente na Boate Casablanca que Ricardo “estreou” como Dayany. “Eu era apresentador dos transformistas de lá. Contava piadas e as pessoas gostavam, sempre me identifiquei como transformista cômico”, relembra. “Na Casablanca, se criou um grupo de transformistas e travestis chamado Metamorfose, que fazia espetáculos tanto em boates como em teatros. Chegaram a lotar finais de semana no tradicional Theatro José de Alencar”, conta Juliana.


Segundo pesquisa da autora, a maioria dos registros oficiais dessa história se perdeu. “Trata-se de um silenciamento que se tentou impor a essas pessoas. Quase ninguém sabe da importância e alcance do grupo Metamorfose para a arte transformista e travesti. O ‘arquivo’ dessa época está vivo, faz parte da construção da cidade”, ilustra. “Hoje existe um espaço bem maior do que na década de 1970. É reflexo de lutas que surgiram há décadas e hoje são protagonizadas por uma geração que dialoga com um público mais amplo”, opina Cláudio.

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Abertura

No contexto atual, as redes sociais têm papel importante e vemos drags ocupando diversos espaços antes negados, como a televisão. A abertura a essas performances em Fortaleza, no entanto, começou antes, na década de 1990. “O primeiro boom drag na Capital se deu nessa época, em boates como a Broadway. Famílias de drags brilhavam nos palcos e traziam performances que eram bastante conhecidas pelo bate-cabelo, pelas cores e pelas montações consideradas ‘exóticas’ em relação àquelas de transformistas”, aponta Juliana. O tipo de montação é considerado, inclusive, a principal diferença entre a arte drag e a transformista — a primeira seria “exagerada”, e a segunda inspirada no ideal de beleza feminina hegemônico. “Apesar das diferenças, essas performances se influenciam e podem subverter o que comumente se entende por transformista ou drag”, salienta.

 

A atriz Alicia Pietá, do Coletivo As Travestidas, é uma mulher trans, mas chegou a ser transformista há cerca de 10 anos. Da época que se montava para agora, ela vê nítidas diferenças, especialmente em relação ao acesso à informação. “Naquela época, o conhecimento era passado de amiga pra amiga, não tinha recurso de vídeos no YouTube. A gente usava o que tinha e ia se virando”, conta. “Hoje, a cultura drag se tornou meio pop. Não que ainda não seja marginal, mas há reconhecimento”, opina a atriz.

JOÃO GABRIEL TRÉZ

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