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Maranguape inaugura sala de cinema

01:30 | 10/04/2017
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Durante a infância e a maior parte da adolescência, as sessões de filme que eu mais gostava eram as de VHS e, posteriormente, DVD, que meus pais alugavam para assistir junto dos meus irmãos. Era costume passar na locadora nas noites de sexta-feira e escolher três vídeos para devolver só na segunda. Era isso ou esperar as exibições na TV.


Cansei de ficar muitos meses aguardando pra ver aquele filme cujo trailer havia assistido várias vezes nas sessões caseiras. Se fosse um sucesso de bilheteria, então, ainda tinha que enfrentar a fila de espera das locadoras.


Essa espera podia ser amenizada, afinal de contas, se deslocar até Fortaleza não era coisa do outro mundo. Mas não era costume da população de Maranguape sair da cidade, encarar uma viagem de quase uma hora só pra ir ao cinema. Cresci torcendo, ano a ano, pela inauguração de um aqui mesmo. E não foram raras as vezes que ouvi falar da possível chegada.

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Na última quinta-feira, 6, a espera terminou. Convidado para a inauguração das salas Centerplex, do Maranguape Shopping Mall, que havia frustrado muita gente quando foi inaugurado - em 2015 - sem cinema, só acreditei mesmo quando entrei nas duas salas.


Elas ficam no terceiro piso, sem mais nada por perto. Uma delas comporta 123 espectadores, com projeção 3D. A outra é para 103 pessoas. Do lado de fora, é possível comprar pipocas e outras guloseimas, como em qualquer outro cinema.


No evento de inauguração, somente para convidados, todos capricharam nas vestimentas. Camisas sociais, vestidos, brilhos. Uma baita produção para assistir o mais novo filme dos Smurfs, baseado no famoso desenho animado dos anos 1980.


Lembrei quando meu pai contava do extinto Cine Maragoa, que durou de 1969 até os primeiros anos década de 1980. De frente para a praça principal da cidade, todo mundo se arrumava todo no domingo pra assistir a Tom e Jerry lá.


Entre os que aguardavam para ver o filme na última quinta, quem estava na casa dos 30 anos pra baixo, como eu, demonstrava mais empolgação.


Foi quase impossível pelo menos um comentário não sair da boca de cada um que olhava para as cadeiras, para a tela, para o projetor. Os sacos de pipoca, oferecidos de graça, ficaram em segundo plano. Todo mundo queria era ver aquilo funcionar. Silêncio absoluto. Atenção ao filme.

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É até estranho dizer isso, mas, por um momento, achei que não estava em Maranguape. Cheguei a olhar a hora no celular, pensando na volta, só então me dando conta que desta vez eu não precisaria me preocupar com o ônibus ou em chegar tarde. Estava a poucos minutos a pé de casa. Ao fim da sessão, muitos ainda ficaram ali, batendo papo, falando mais sobre o empreendimento que do filme que tinham acabado de assistir.


Na volta, conversando com um colega, ouvi a revelação que aquele era seu sonho de criança. Não me espantei. Era o meu também. E acho que da grande maioria da minha geração.


Fiz parte de um grupo que assistiu aos clássicos na sala de casa. Que foi ao cinema mais tarde (eu, por exemplo, fui pela primeira vez aos 15 anos). E que achava aquilo algo muito especial, confesso.


O hiato de exibição nas telonas em Maranguape nunca teve uma explicação. Alguns acreditavam em superstição, ligada a queda do teto do Cine Maranguape, em 1961, que matou 10 pessoas e feriu 50. Outros apontavam o potencial do mercado, muito embora um dos sócios da rede, a mesma que atua em Maracanaú, admita que grande parte do fluxo de lá seja oriundo de Maranguape. O certo é que a brincadeira interna chegou ao fim, sem dar tempo de virar lenda.


Além de proporcionar uma nova opção de entretenimento, a chegada de um cinema em Maranguape pode fazer mais. Localizada numa parte da sede do município que não apresenta movimento à noite, as salas podem criar um novo ponto de lazer, a medida que o shopping se desenvolver.



BRENNO REBOUÇAS

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