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Guernica, de Picasso, completa 80 anos

01:30 | 04/04/2017
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Há 80 anos, em uma tarde de primavera, Guernica ardia debaixo de bombas. Dias depois, Pablo Picasso pintava o quadro que tem o nome dessa localidade basca e que virou símbolo universal contra a guerra, da Espanha de 1937 à Síria de 2017.


O quadro voltou à linha de frente e a partir de hoje, 4, protagoniza uma grande exposição dedicada ao seu autor no Museu Reina Sofia, em Madri, onde está há 25 anos.


Seu efeito é tal que na ONU os bairros devastados da cidade síria de Aleppo foram descritos há alguns meses com um “Guernica do século XXI”.


O ataque a Guernica causou entre 150 e 300 mortos, de acordo com as últimas estimativas de vários historiadores, mas, sobretudo, inaugurou a “guerra ao terror”, que consiste em bombardear por via aérea os civis, uma tática usada muitas vezes na Segunda Guerra Mundial.

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Dois dias após o bombardeio, em sua oficina da Rue des Grands-Augustins, em Paris, Picasso descobriu pelos jornais os primeiros registros fotográficos da tragédia. Em 1º de maio começou os esboços preparatórios.


Na tela, de mais de sete metros de comprimento, uma mãe com seu filho morto nos braços se contorce de dor, sob o olhar impassível de um touro. Um miliciano desmembrado com uma espada quebrada jaz no chão, pisoteado por um cavalo em fuga.


Morando em Paris desde 1904, Picasso já era um dos maiores nomes da pintura mundial, e militava em defesa da Segunda República espanhola.


A tela, feita a partir de preto, branco e cinza, respondia a um pedido das autoridades republicanas espanholas, e foi exibida na Exposição Universal de Paris em 1937, onde podiam ser vistos os pavilhões rivais da Alemanha nazista e da União Soviética.


Emblema da esquerda

Apesar do seu reconhecimento universal hoje, a imagem recebeu algumas críticas na época, como do crítico de arte britânico Anthony Blunt: “Picasso pertence ao passado”.

 

O poeta francês Michel Leiris permaneceu parado estupefato por algo “assombrosamente belo”. “Picasso nos envia nossa carta de luto: tudo o que amamos vai morrer”, escreveu ele.


O quadro, por sua vez, viveu sua vida de “exilado espanhol”, e a partir de 1937 iniciou uma longa viagem pela Europa e Estados Unidos, que inicialmente serviu para arrecadar fundos para os refugiados espanhóis da guerra. Confiada ao Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova York em 1939, ano que Franco ganhou a guerra, a obra permaneceu mais de 40 anos em solo americano.


Picasso, filiado ao Partido Comunista francês em 1944, havia orientado que a pintura só poderia ir ao seu país natal quando fosse devolvido ao povo espanhol as liberdades que tinham sido confiscadas.


Na Espanha, por sua vez, tornou-se um símbolo poderoso. Os “antifranquistas penduravam muitas vezes em suas paredes o cartaz do Guernica”, aponta o francés Emmanuel Guigon, diretor do Museu Picasso em Barcelona.


Em 1981, seis anos após a morte do diretor, o quadro viajou a uma Espanha em plena transição democrática.


Sua primeira localização foi, no entanto, um pouco peculiar. Foi exibido em uma dependência anexa do Museu do Prado atrás de um triste “bunker de vidro à prova de explosões e balas (que) afastava o espectador” em um país onde a memória histórica estava “longe de ser pacificada”, segundo o escritor e posterior ministro da Cultura Jorge Semprún (1923-2011).


“A importância que tem no inconsciente coletivo é tal que o defino como um trabalho espiritual, sempre com o objetivo de promover a paz”, disse à AFP um neto do pintor espanhol, Bernard Ruiz-Picasso. (AFP)

 

ADRIANO NOGUEIRA

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