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Rosto pintado de preto é sempre blackface?

Após debate levantado na 10ª Bienal da UNE envolvendo militância negra e maracatu cearense, o V&A discute controvérsia em torno do negrume

01:30 | 01/02/2017
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Renato Abê

renatoabe@opovo.com.br

 

[SAIBAMAIS]

Quando se imagina um dia de desfile de maracatu em meio ao Carnaval na avenida Domingos Olímpio, uma imagem vem à mente: uma rainha com veste farta, coroa e rosto pintado de preto. Para nós, cearenses, essa figura é facilmente associada à tradição e cultura popular. Não foi, porém, o que aconteceu durante apresentação do Maracatu Rei Zumbi na 10ª Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE), evento que reúne discentes do país inteiro.

O cortejo de abertura do evento foi interrompido, no último domingo, 29, por militantes do movimento estudantil da Bahia e de Minas Gerais. Eles entenderam a expressão cultural como blackface, prática vinda do teatro norte-americano que consiste basicamente em atores brancos se pintarem de preto para interpretar negros de modo caricatural.
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“A questão não é tanto o blackface, que é um fenômeno instituído para fazer chacota do negro, mas tem que se considerar que é muito difícil as pessoas (de fora do Estado) entenderem por que, no maracatu cearense, as pessoas estão pintadas de preto, se em outro lugares não se pintam”, destaca Sandra Petit, coordenadora do Núcleo das Africanidades Cearenses (Nace), da UFC. A professora pondera que, no contexto da cultura no Estado, o negrume, que é o ato de pintar o rosto de preto e cobrir braços e mãos com vestimentas pretas, é usado como uma “forma de realçar a negritude”.

Sandra pondera ser preciso considerar a situação de “desvalorização da pessoa negra”, ainda tão viva na sociedade brasileira. “No contexto como esse de racismo ainda presente, a mensagem de exaltação da cultura negra no maracatu cearense pode parecer contraditória”, contrapõe, ressaltando não concordar com a forma como os militantes interromperam “de forma violenta” a apresentação durante a bienal. “Negrume é uma tradição, mas também pode ser tensionada sem necessariamente perder a essência, mas será que a essência do maracatu é o negrume? É algo muito maior que nisso. Assim com seria muito redutor e injusto colocar o maracatu como racista”, elabora.

A origem do rosto negro no maracatu é incerta. Pesquisadores e brincantes apontam duas teorias: a de que o negrume seria uma forma de esconder a identidade dos brincantes ou de que seria uma máscara artística como instrumento estético. O que se sabe é que o rosto negro ganhou força com Maracatu Az de Ouro, criado em 1936 por Raimundo Alves Feitosa. Brincante do maracatu Nação Fortaleza há dez anos, Lais Santos aponta, porém, que relatos do cronista Gustavo Barroso (1888–1959) no início do século passado já destacam o negrume. “Independente de qual seja o contexto da história, as intenções do negrume e do blackface são totalmente diferentes”, afirma, destacando entender “que cause uma estranheza”, especialmente em contexto de Carnaval, quando o racismo ganha forma em fantasias de “negra maluca” ou de “empregada”.

Lourdes Macena, doutora em artes e pesquisadora à frente do grupo de Estudos em cultura folclórica aplicada do Instituto Federal do Ceará (IFCE), destaca que a prática do negrume está presente em diferentes manifestações culturais pela América Latina. Para ela, o ocorrido na UNE evidencia “desconhecimento” sobre as diversas manifestações do maracatu. “‘Demonstrou uma ausência total de conhecimento dessa manifestação, até porque o maracatu que é conhecido no Brasil é o de Pernambuco. O que aconteceu mostra a necessidade de divulgação nacional do maracatu cearense”.

SERVIÇO

10ª Bienal da UNE
Cortejo de encerramento com Maracatu Solar
Ponto de encontro: estátua da Iracema Guardiã, na Praia de Iracema, a partir das 17 horas

BATE-PRONTO

Ricardo Guilherme, teatrólogo e pesquisador

O POVO - Por que o negrume é importante dentro do Maracatu?
Ricardo Guilherme - É a forma cênica de afirmação de nossa identidade cultural negra, tão historicamente negada na história de nossa formação étnica. O negrume é uma forma, fruto de adições de tradições, de reconhecer traço negro mesmo quando somos provenientes de miscigenações, aculturações.

O POVO - Você, enquanto um artista de pele branca, já sentiu, de algum modo, um incômodo ou problematizou o fato de usar o negrume?
Ricardo Guilherme - Tenho na ancestralidade o sangue negro que, pelo processo histórico, em contato com outras etnias, se fez morenidade. Eu me orgulho dessas raízes culturais e o maracatu - ao explicitar o negrume - me sintoniza com a história não apenas minha, mas do Ceará, do Brasil.
Negrume não é incômodo ou problema para mim. É reconhecimento, pertencimento, afirmação identitária, transgressão contra o racismo.

SAIBA MAIS

A partir de hoje, os maracatus Nação Fortaleza, Vozes D’África, Solar e Az de Ouro se apresentarão a cada quarta-feira, sempre às 12h30min, no Hall do Cineteatro São Luiz (Praça do Ferreira - Centro). A programação gratuita é proposta pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) e segue até o dia 22 de fevereiro.

ADRIANO NOGUEIRA

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