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Questão de idade

O Vida & Arte debate a representação e o espaço de mulheres mais velhas no cinema. Sonia Braga e Isabelle Huppert foram destaques em 2016

01:30 | 07/02/2017

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João Gabriel Tréz

joaogabriel@opovo.com.br


São muitas as demandas por representações cinematográficas que consigam ir além do perfil “homem-branco-jovem-heterossexual”. Entre as lutas por representatividade, há a pela presença de mulheres mais velhas assumindo papeis de destaque em filmes. Em 2016, longas com protagonistas nesse perfil foram alguns dos mais repercutidos – entre eles, Aquarius, estrelado por Sonia Braga, 66 anos, O Que Está Por Vir e Elle, ambos com Isabelle Huppert, 63 anos. A partir deste panorama, o Vida&Arte conversou com especialistas e reflete: qual o lugar da mulher mais velha no cinema?

 

Mulheres em Hollywood

Os exemplos de Sônia e Isabelle estão longe da principal indústria de cinema, a norte-americana. Nela, como apontam estudos recentes da Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, o espaço das atrizes mais velhas é pequeno: dentre os personagens com mais de 40 anos presentes nas 100 maiores bilheterias de 2016 nos EUA, apenas 24,6% eram mulheres. A pesquisa também apontou que, ainda dentro do recorte das bilheterias, apenas cinco filmes tinham mulheres acima de 45 anos como protagonistas ou co-protagonistas, enquanto foram 26 os filmes com homens de mesma faixa etária na mesma posição.

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Quando compara o espaço no cinema antigo norte-americano com o atual, Adriano Coelho, escritor e especialista na “era de ouro” de Hollywood, vê melhoras. “Hoje muita atriz se destaca, é valorizada. A arte precisa da criança à pessoa mais velha”, defende. Para Ivonete Pinto, crítica de cinema e professora da Universidade Federal de Pelotas, não surpreende que histórias assim não sejam contadas na indústria norte-americana. “Elas costumam vir em cinematografias mais ousadas. No geral, o cinema de mercado é feito para adolescentes. Temáticas específicas que tratam de pessoas com mais de 40, 50 anos, já é ‘filme para adulto’”, avalia.


Representações

A pesquisa da Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg indicou também que, à medida que a idade é maior, as mulheres são menos propensas a serem referenciadas como “atraentes” e terem momentos relacionados à sexualidade – na faixa etária de 13 a 20 anos, ao contrário, esses índices são altos. Isso revela, ao mesmo tempo, a sexualização precoce da figura feminina no cinema e a dessexualização das mulheres mais velhas.

 

Para Ivonete, as personagens de Sonia Braga e Isabelle Huppert são bons exemplos de representações menos clichês. “Elas têm mais de 60 anos, mas fazem personagens vigorosas, com vida sexual ativa. Em outros tempos, atrizes com essa idade faziam apenas vovozinhas. Elas representam o que as mulheres de fato podem ser: maduras, mas ativas em todos os sentidos”, reflete. “Cabe aos diretores e diretoras saber explorar o perfil das atrizes, investindo numa representação que tenha ressonância com a vida real contemporânea. Afinal, nela, a questão parece ter avançado muito”, conclui.


SAIBA MAIS


A pesquisa completa da Escola de Jornalismo e Comunicação Annenberg, que também examina a desigualdade de representações no cinema em relação à raça, sexualidade e deficiência física, pode ser encontrada (em inglês) no link: goo.gl/ajpb5k

ADRIANO NOGUEIRA

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