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"Negra sim, negra sou"

| LITERATURA |Em entrevista ao Vida&Arte durante o Seminário Leitura e Escrita: Lugares de Fala e Visibilidade, realizado em São Paulo, as escritoras Ana Maria Gonçalves e Bianca Santana abordam a produção literária negra em um País racista como o Brasil

08/04/2019 02:04:44
Escritora, jornalista e cientista social paulista Bianca Santana é autora do livro Quando me descobri negra (2015)
Escritora, jornalista e cientista social paulista Bianca Santana é autora do livro Quando me descobri negra (2015) (Foto: Fernando Cavalcanti/ Divulgação)

Quando tinha apenas cinco anos, a pequena Victoria Santa Cruz (1922-2014) foi chamada de negra pela primeira vez. Não entendeu o significado, mas sentiu nas entranhas como a palavra ressoava ofensiva nas vozes que a rechaçavam. A primeira violência racista lembrada pela coreógrafa, folclorista e estilista afro-peruana se tornou, entre seus dedos de poeta, a canção-poema Me Gritaron Negra (1960). Nos versos, Victoria orgulha-se: "E daí? Negra sim, negra sou".

As vivências de mulheres negras como Victoria Santa Cruz são partilhadas entre gerações há milênios. As narrativas - ora faladas, ora escritas - compõem capítulos inúmeras vezes arrancados da historiografia hegemônica. Mas suas vozes nunca se calaram. Em suas "escrevivências", termo utilizado pela autora mineira Conceição Evaristo para abordar a experiência de vida cotidiana de pessoas negras, escritoras negras multiplicam a diversidade literária do País.

Durante o Seminário Leitura e Escrita: Lugares de Fala e Visibilidade, realizado no fim de março em São Paulo pelo Itaú Social, o Vida&Arte conversou com dois renomados nomes da literatura brasileira: Ana Maria Gonçalves e Bianca Santana. Nascida na cidade de Ibiá, em Minas Gerais, Ana é autora do aclamado Um defeito de cor (2006). Narrado pela personagem Kehinde, africana que chegou ao Brasil escravizada, o livro se tornou referência no debate sobre racismo estrutural. Por meio da obra, as trajetórias de Ana e Bianca se costuraram definitivamente: a jornalista paulista e colunista da CULT entrevistou Ana e resgatou ancestralidades tão negadas. Hoje, Bianca é autora do livro Quando me descobri negra (2015). Com O POVO, elas debateram o fazer literário em um País ainda tão racista como o Brasil.

O POVO: Em um contexto hegemônico que ainda reproduz narrativas europeias e normativas, é importante demarcar uma literatura negra?

Bianca Santana: A gente produz literatura. Em alguns contextos, a gente precisa nomear literatura feminista, literatura negra, mas o que a gente produz é literatura como qualquer outra. A literatura dita universal é produzida por um sujeito universal que não existe. Se esse humano universal não existe, a narrativa literária universal também não existe. Ela está em disputa e nós estamos disputando também. Tem uma parte das nossas histórias e narrativas que é oral e é importante que a oralidade seja preservada e valorizada. Mas tem outro aspecto que, para disputar o hegemônico, é preciso registro escrito.

O POVO: Quais escritoras negras marcam sua trajetória na literatura?

Ana Maria Gonçalves: A minha primeira referência, quando eu comecei a pensar em escrever, foi a Toni Morrison (escritora, editora e professora estadunidense). Eu dizia: "Quando crescer, quero ser igual a ela, o que ela representa, o que ela escreve". No Brasil, comecei com leituras de Lélia Gonzalez (política, professora e antropóloga mineira falecida em 1994) e Sueli carneiro (escritora e filósofa paulista). Não é uma literatura de ficção, mas eu uso na minha literatura de ficção... Chegando até Conceição Evaristo, Cidinha da Silva, Jarid Arraes, Bianca Santana, Eliana Alves Cruz, Kiusam de Oliveira... São tantas, já não dá mais para listar.

O POVO: Nossa língua ainda é construída por racismo e sexismo. Como podemos evitar reproduzir ações racistas na fala, na escrita, no cotidiano?

Bianca Santana: A linguagem importa muito. Ela não importa só nas leis, que determinam muito da nossa vida na palavra escrita, mas ela importa porque materializa algo. É muito importante essa atenção à linguagem porque a gente fala uma língua de quem nos colonizou. Já existe um massacre de tantos povos com tantas línguas diferentes que, apesar disso, resistem também na língua. Quantas palavras do nosso vocabulário, quantas vezes o nosso jeito de narrar não se aproxima de narrativas comuns em outros lugares do mundo? Tantas vezes a norma culta nos é imposta como única possibilidade de expressão, não é? Eu gosto muito quando a Lélia Gonzalez traz a noção de "pretuguês". Ela vai escrever como as pessoas falam, como as pessoas pretas se comunicam, nessa linguagem comum entre as pessoas pretas. A gente precisa não só prestar atenção nas palavras que a gente usa no cotidiano - denegrir não faz sentido; mulata não faz sentido - como nas expressões. "Dia de branco", qualquer bobagem dessas. E não só: além dessa atenção que precisa ser cotidiana até a gente aprender a falar sem reproduzir racismo, é fundamental buscar outros repertórios, buscar outras formas de narrar, buscar outras histórias. Isso aumenta o nosso repertório cultural. Quando a gente descobre novas linguagens, a gente descobre novas possibilidades de existir, de se expressar, acontecem outras conexões com o nosso corpo, outras conexões da gente com o outro, com o mundo. Conhecer linguagens de pessoas negras, de pessoas indígenas, de etnias variadas aumenta as nossas possibilidades de existência.

O POVO: Muito falamos sobre a multiplicidade de narrativas, tantas vezes diminuídas e apagadas nesse País notoriamente racista. Qual é o nosso lugar de responsabilidade nessa constituição histórica?

Ana Maria Gonçalves: A eleição de Jair Bolsonaro (PSL) nos deu uma prova. As pessoas não elegeram o Bolsonaro apesar dele ser homofóbico, machista e racista - elas o elegeram porque ele é homofóbico, machista e racista e ousa falar isso em voz alta; existe alguma identificação do grande público dele. Nós precisamos continuar denunciando e continuar falando. Quando falamos sobre racismo para uma plateia branca, grande parte das pessoas vão se sentir desconfortáveis ou ofendidas. Gente, façam uma terapia. Eu preciso falar disso. Essa culpa não é minha, essa culpa é muito cristã e judaica, no candomblé não tem culpa. A gente precisa ter esse diálogo que é cultural sem que ninguém sinta culpa, mas se sinta responsável. A questão da responsabilidade é extremamente importante, a gente aqui foge muito disso. Um exemplo que eu adoro dar é quando você fala para alguém: "Cheguei atrasado porque fiquei preso no trânsito". Não foi o trânsito, o seu carro também estava ali, você assume a responsabilidade de que você é parte daquele congestionamento e que também está atrapalhando outras pessoas. Isso é algo que não está presente na cultura brasileira, a gente ainda tem essa coisa de que "foram os outros, eu não sou, eu não sei, eu não faço, eu não vi". Vamos chamar para a gente essa responsabilidade. É impossível não ser machista, racista e homofóbico num País que estruturalmente é. Lidemos com isso. O que a gente é, hoje em dia, é anti-racista. Lidar com o preconceito e de uma maneira que ele não se manifeste, é isso que a gente tem
que fazer.

O POVO: A discussão sobre a "herança maldita" colonial está cada vez mais presente nas artes. Qual é a importância da pluralidade desse debate?

Ana Maria Gonçalves: É importante lembrar que gente não está lidando mais com concessões. Quando eu entro em um espaço para falar com público - seja ele branco ou negro, militante ou não, não me interessa - eu não encaro aquilo ali como um espaço de concessão. Eu tenho direito de estar ali, tenho direito de explorar as minhas ideias e de não amaciar... Eu não acredito em uma arte que não seja política. Se eu estou ocupando um determinado espaço e eu acho que tenho algo a falar para aquele público ou naquele espaço, eu tenho que falar sem amaciar. Não podemos pensar nisso como uma concessão e nem nos acomodarmos com uma palavra que está ficando cada vez mais perigosa: representatividade. Como uma mulher negra, por vezes sou chamada para determinados lugares porque o checklist é duplo. Representatividade também é um espaço que não me interessa ocupar. Não dá para ficarmos só eu, só a Conceição Evaristo, só a Cidinha da Silva: tem aí uma outra gama de escritoras enorme, um pessoal muito jovem produzindo uma literatura muito interessante e também chegando para ocupar esses espaços. Ou seja, eu não quero ser a única a ser chamada. Meu negócio
é estar lá e falar que tem mais gente, vamos
atrás, eu não vou ficar sozinha aqui.

*A repórter viajou a convite do Itaú Social

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Bruna Forte