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Jornal

Reaprender o diálogo

|Resenha | Recém-lançado no País, novo livro do cientista político Mark Lilla faz análise sobre os rumos da democracia liberal a partir da experiência norte-americana

23/03/2019 02:10:44
Mark Lilla é cientista político, jornalista e professor da universidade de Columbia
Mark Lilla é cientista político, jornalista e professor da universidade de Columbia (Foto: Divulgação)

Quando Donald Trump venceu as eleições em 2016, a primeira reação mundial foi de susto. O americano baseou sua campanha num discurso avesso à pauta do politicamente correto e sua vitória se tornou uma incógnita: como seria a América de Trump? O resultado ecoou em outros países, que assistiram ao fortalecimento de políticos com características semelhantes: Orbán, Erdogan, Bolsonaro. Uma sensação palpável de mudança começou a transformar o cotidiano mais doméstico das pessoas, a polarização ideológica ganhou as ruas e trouxe a política para o almoço familiar de domingo.

Pouco a pouco, despontaram obras no mercado editorial cuja proposta é apresentar, para um público não especializado e sedento de informações, leituras sobre o que está acontecendo com a democracia. Assim surge o polêmico livro de Mark Lilla, professor da Universidade de Columbia: O progressista de ontem e o do amanhã: desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias, com tradução lançada no Brasil pela Cia das Letras.

Apesar do título pomposo, o ensaio de Lilla é amigável ao leitor não iniciado em teoria política e oferece uma prosa fluente, por meio da qual ele explica algumas das razões para o sucesso do partido republicano nas eleições americanas de 2016. O interesse é investigar o que ele chama de "crise de imaginação e ambição" do liberalismo americano, identificado com o partido democrata e as vertentes mais progressistas do espectro político estadunidense. As semelhanças entre o presidente americano e o brasileiro são muitas, o que torna a reflexão de Lilla interessante para o leitor do Brasil, sobretudo pelo que a obra tem a oferecer como perspectivas de futuro.

Lilla associa o fracasso eleitoral dos progressistas a uma obsessão do partido democrata com a pauta identitária. Ao se concentrar nas demandas das minorias, o partido teria perdido a capacidade de mobilizar grande parte do eleitorado americano, deixando a maioria carente de uma visão de futuro que pudesse inspirar a adesão popular à candidatura progressista. A carência acabou abrindo o flanco para a xenofobia e o extremismo. O argumento soou antipático às minorias e não tardou até que críticas começassem a despontar.

Lilla concentra seus esforços em elogiar uma visão mais pragmática de democracia. Sem desmerecer o valor e as conquistas dos movimentos sociais (negro, feminista, LGBT) e de seus esforços por uma agenda mais sensível à diferença identitária, o autor chama atenção para a necessidade de abandonar um militantismo pouco estratégico: "conquistar e manter o poder em instituições" deve voltar a ser prioridade aos liberais progressistas. "Não basta protestar, transgredir, extravasar", diz Lilla, é preciso falar à totalidade de eleitores e dedicar-se ao "lento e paciente trabalho de disputar cargos, redigir leis, barganhar para que sejam aprovadas".

O caminho proposto pelo autor é a reabilitação do conceito de cidadania, capaz, segundo ele, de reforçar os vínculos de solidariedade para além das diferenças identitárias e permitir a retomada de um diálogo entre visões de mundo diferentes. É preciso descer do púlpito e construir pontes entre as pessoas, diz ele. Sua reflexão merece uma leitura atenta, ainda que crítica. Lilla demonstra como a democracia pode ser implacável, o que torna sedutor seu apelo ao pragmatismo: eleições se perdem e, num piscar de olhos, conquistas de inclusão podem ser revertidas graças à caneta de quem passar a ocupar a política institucional.

Juliana Diniz é escritora e professora do curso de Direito da UFC

 

O progressista de ontem e o do amanhã: desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias

Mark Lilla

Editora: Cia. das Letras

120 páginas

Preço Médio: R$36,90

Livros que têm como tema os rumos da democracia
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