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Jornal
Entrevista

Halder Gomes comenta os desafios de produzir cinema no País

O cineasta é diretor do Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral, comédia que estreou esta semana na região Nordeste e no DF

22/03/2019 02:39:01
Halder Gomes, cineasta
Halder Gomes, cineasta (Foto: Fábio Lima)

Nos idos de 2004, do tempo em que os mais diversos títulos se acumulavam nas prateleiras das locadoras, o então inexperiente cineasta Halder Gomes causou rebuliço com o lançamento do curta-metragem Cine Holliúdy - O Astista Contra o Caba do Mal. O filme de 15 minutos percorreu 20 países em 80 festivais e "deu uma cacetada em Matrix, foi um sucesso medonho", ri-se o diretor. Nascia, assim, o embrião do aclamado Cine Holliúdy, longa lançado em 2013 como primeiro colocado no edital de produções audiovisuais de baixo orçamento do Ministério da Cultura do Brasil em 2009. Ontem, 21, Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral chegou aos cinemas do Nordeste e do Distrito Federal para narrar os causos de Francisgleydisson, vivido por Edmilson Filho.

Na luta para manter viva a paixão pela sétima arte em um contexto de escassez, o protagonista aventura-se pela produção cinematográfica e decide gravar um filme na pequena cidade de Pacatuba, Região Metropolitana de Fortaleza. Invocado que só ele, o mais novo cineasta passeia pela ficção científica para contar a batalha entre Lampião e alienígenas - tudo isso nos moldes do que chamam de "cinema de vaquinha", com apoio da população local. Além de Edmilson Filho, o elenco conta com nomes como Miriam Freeland, Ariclenes Barroso, Roberto Bomtempo, Samantha Schmütz, Gorete Milagres, Falcão, Milhem Cortaz e Bolachinha. Em entrevista ao Vida&Arte, Halder Gomes abordou os desafios de fazer cinema no Brasil.

O POVO - Você tem realizado um exercício de gênero ao longo dos últimos anos no cinema. Agora, Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral apresenta ao público uma ficção científica. Como foi esse trajeto?

Halder Gomes - Eu fui criado assistindo Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, O Túnel do Tempo, eu tenho uma referência muito nostálgica disso tudo. Como eu consegui integrar o gênero dentro desse nosso universo? Ele já faz parte da nossa cultura popular. Quando você vai em Quixadá, todo mundo diz que já foi abduzido. As pessoas dizem que é difícil encaixar filme de gênero no Brasil. É difícil, mas a gente está criando um laboratório interessante dentro da própria comédia. O Shaolin do Sertão (2016) é um filme de sola no espinhaço do começo ao fim, é um filme de luta, mas a comédia é a alma. Esse também transita por gênero, mas tem a comédia como essência. Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral tem uma complexidade técnica e artística, você está transitando por um universo de infinitas informações estéticas e de comédia acumuladas ao longo do tempo que transbordam ali no filme. A gente vive dentro da comédia o tempo inteiro. Você se torna um grande observador do dia a dia e o timing pra comédia se aguça. É um negócio que é vivo, pulsante.

O POVO - O Cine Holliúdy 2 está repleto de cutucadas políticas. A operação Lava Jato é resgatada quando um dos personagens afirma "não ter provas, mas ter convicção", por exemplo. Entretanto, a crítica cultural é o que mais se destaca: a primeira-dama Justina Ambrósio (Samantha Schmütz) ressalta odiar artistas pensantes. Qual é a importância, na sua obra, da abordagem desse tema?

Halder - A gente está vivendo um momento muito distorcido, onde tentam culpar o artista pela desgraça que estamos passando - sendo que não é nossa responsabilidade nada disso. O artista tem na arte a possibilidade de falar por ela, em vez de falar apenas por si. Se você parar para pensar e tirar todas as memórias afetivas que você tem das músicas, do filme da sua vida, da sua primeira paixão, de uma peça de teatro que você viu, se você tirar tudo o que foi construído por artistas, você perde sua identidade e vira um preá. A gente faz parte do universo de construir, através da cultura, a essência. Nos nossos filmes, a gente está ajudando a construir uma identidade. O filme toca nesse ponto justamente por isso: toda a nossa referência de mundo vem de um artista, desde a pintura rupestre. A história da humanidade está contada através de artistas.

O POVO - Cine Holliúdy levou quase 500 mil espectadores às salas de cinema no Brasil inteiro. Mais uma vez, contudo, o lançamento do seu novo longa será realizado primeiro no Nordeste e no Distrito Federal. Qual é a expectativa de lançamento nas demais regiões?

Halder - A decisão de lançar primeiro no Nordeste é do distribuidor. Se o filme emplacar muito forte na Região, a gente avança por outras praças e cresce com a demanda. É uma coisa mais pragmática, mas que tem um papel muito importante como pensamento mercadológico no Brasil: o Nordeste, depois de Cine Holliúdy, se mostrou como um grande potencial de mercado e não apenas uma rebarba. Agora, as pessoas enxergam o Nordeste como um lugar no qual você pode ter uma produção de conteúdo de qualidade que é bem distribuído em todo o País. Eu acredito que daqui a duas semanas o filme chega em outras praças.

O POVO - A formação do Francisgleydisson como cineasta reflete muito a dificuldade de produzir arte sem apoio financeiro, de forma independente. O que tem seu no protagonista de Cine Holliúdy?

Halder - O que eu posso dizer que tem da minha trajetória no Francisgleydisson é essa saga de transformar um texto em filme. É muito complexo escrever uma linha e transformar em imagem. No caso do Francisgleydisson, o filme completa involuntariamente uma trilogia que fala sobre a influência do cinema de gênero na cultura popular do Nordeste. A gente tinha no Cine Holliúdy 1 a morte dos cineminhas através da televisão, dos cinemas de gênero mais especificamente. Já O Shaolin do Sertão vai para a década de 1980, onde o sonho de consumo de todo mundo era o videocassete para suprir esses órfãos que ficaram sem pai e nem mãe depois que os cinemas fecharam. Agora, a gente vem prestar uma grande homenagem à produção mambembe de cinema no Brasil. Dentro de uma escala industrial e de um contexto de dificuldade de mercado, estamos dialogando com a realidade que vivemos agora com a vivida pelo Francisgleydisson em seu microcosmo.

Bruna Forte