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Jornal
Oscar 2019

De quantas revoluções é capaz uma mulher?

| Oscar | Ganhador do prêmio de melhor Documentário Curta-Metragem, Absorvendo o Tabu conversa sobre menstruação, tema ainda velado em tantas realidades

Filme retrata  as revoluções individuais promovidas em muitas mulheres com a chegada de uma máquina de produção de absorventes de baixo custo num vilarejo 
na Índia
Filme retrata as revoluções individuais promovidas em muitas mulheres com a chegada de uma máquina de produção de absorventes de baixo custo num vilarejo na Índia

Menstruação. É uma lembrança quase nítida quando pela primeira vez me deparei com a concretude em mim dessa palavra quase nunca falada durante a minha infância. Lembro do susto e da vergonha. Susto do sangue, vergonha de quando minha mãe (ainda não sei exatamente pelo quê) disse entre tantas familiares sobre o episódio e a curiosidade de todas elas sobre mim.

A naturalidade levou anos para chegar e ainda é encarada com espanto com muitas mulheres com as quais converso. Quando elas se deixam levar, porque muitas ainda acham um assunto a não ser tão falado assim. Ainda há muito dessa vergonha associada a menstruação do lado de cá, no Ocidente. Nessa centralidade de imaginarmos, por vezes, o que vivemos - nós, ocidentais - como a verdade de um mundo, deixamos de reparar nas outras realidade possíveis.

Por aqui, devagar conversamos mais sobre menstruação. Devagar, menos meninas escondem, menos meninas se envergonham. Por aqui, inclusive, discutimos novos, e sustentáveis, itens para substituir o absorvente, conhecido desde muito antes da necessidade por tantas de nós. Não reparamos, contudo, a revolução que o absorvente pode causar. O espanto também.

A diretora Rayka Zehtabchi escolheu um início desconcertante para o documentário Absorvendo Tabu, produção da Netflix e que recebeu a estatueta do Oscar no último domingo, 24, na categoria Melhor Documentário Curta-Metragem. Nos primeiros minutos dos 26 que constituem o filme, homens e mulheres que vivem na Índia rural respondem a uma pergunta simples: o que é menstruação?

Em uma realidade onde o patriarcado e o machismo são ainda mais evidentes e se mostram menos sutis, poucos homens sabem do que se trata o período menstrual. Alguns acham que é algo relacionado a escola, enquanto outros acreditam tratar-se de uma "doença feminina". As mulheres não ousam responder. Viram o rosto ou riem de uma pergunta considerada engraçada de tão absurda. Menstruação não é algo sobre o que se conversar.

O decorrer da obra documental, as mulheres da pequena vila indiana de Uttar Pradesh descobrem um elemento duplamente revolucionário: o absorvente. Em um espaço onde muitas meninas não permanecem na escola por conta da menstruação e das dificuldades causadas pela falta de praticidade de usar panos para o sangue menstrual, o primeiro contato - inclusive, de avós - com o item parece abrir os olhos das mulheres para uma realidade futura talvez não imaginada até ali.

Mas não é só na praticidade trazida de pelo absorvente, por si só reestruturadora, que causa transformação em Uttar Pradesh. A chegada de uma máquina no vilarejo permite a produção em escala de absorventes de baixo custo. Produção realizada inteiramente pelas mulheres, que no fazer do absorvente, encontram também a independência - ou, pelo menos, menor necessidade - do dinheiro dos homens.

Para comprar um terno de presente para um irmão, para realizar o sonho de se tornar uma mulher policial em Delhi, segunda maior cidade da Índia, ou para não precisar deixar a escola pouco tempo depois de menstruar, as mulheres de Uttar Pradesh mostram que, ainda mais do que o necessário conversar sobre menstruação, a união feminina e o conhecimento sobre o próprio corpo são revolucionários.

Luana Barros