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Jornal

A sessão de cinema das cinco

| memória | Com o projeto Cine Mu(n)do, fotógrafo paulista Sergio Poroger registra cinemas de rua no Brasil e no exterior para valorizar a influência histórica da sétima arte na sociedade

Sergio Poroger fotografa Cine Nazaré para o projeto Cine Mu(n)do.
Sergio Poroger fotografa Cine Nazaré para o projeto Cine Mu(n)do.

O escritor colombiano Gabriel García Márquez comentou, certa feita, que "um cinema à hora da matinê se parece a um museu. Ambos têm um ar gelado, uma quietude funerária. E, entretanto, é a hora preferida dos verdadeiros cinéfilos. O verdadeiro cinéfilo vai ao cinema sempre sozinho". As sessões às três e cinco da tarde, desenroladas preguiçosamente no cair da tarde, eram características comuns em Fortaleza entre 1908 e 1959. Salas como Amerikan Kinema, Polytheama, Cinematógrafo Di Maio ou Art-Nouveau, Riche, Cine Diogo e Majestic-Palace se espalhavam pelas praças e avenidas da Capital, levando projeções aos olhares curiosos de quem descobria então o prazer da sétima arte. Atualmente enclausurados em shoppings, os cinemas de rua praticamente desapareceram ao longo da história - mas, na contramão do esquecimento, o fotógrafo paulista Sérgio Poroger percorre cidades ao redor do mundo fotografando "aqueles cinemas que resistem de forma heroica".

Jornalista graduado pela Universidade de São Paulo nos anos 1980, Sérgio começou a fotografar há 10 anos. "A coisa audiovisual sempre foi muito presente dentro de mim e a fotografia foi uma forma de manifestar as minhas emoções", explica. No flerte com as imagens, conheceu o trabalho de outros jornalistas e fotógrafos como William Eggleston e Robert Frank - o último, um suíço radicado nos Estados Unidos nos anos 1940 e autor do livro The Americans. Inspirado pela contemplação atenta aos detalhes simples e cotidianos de Frank, Sérgio lançou-se a uma viagem de carro por locais como Geórgia, Tennessee e Mississippi para registrar o percurso sonoro do sul norte-americano. Da experiência quase beatnik, o paulista lançou o livro de fotos Cold Hot. Agora, volta-se aos cinemas para explorar a influência histórica da experiência cinematográfica na sociedade. O novo projeto chama-se Cine Mu(n)do.

Em Fortaleza para lançar Cold Hot no Museu da Fotografia no fim de fevereiro, Sérgio dedicou-se a descobrir os cinemas de rua ainda resistentes na Cidade - como o Cineteatro São Luiz e o Cine Nazaré. "Ao contrário do Cold Hot, que eu fotografei só os Estados Unidos, eu resolvei ampliar e fotografar os personagens que habitam na magia de alguns lugares do mundo. Minha ideia é ampliar para mais cidades do Ceará em breve", adianta. Sérgio pretende registrar ainda salas de projeção antigas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Pernambuco.

"Procuro fotografar o bilheteiro, o projetista, essas figuras marcantes dos cines de rua. A minha ideia é resgatar essa arte pulsante, já que a tendência mundial é que esses cinemas sejam engolidos. Em Fortaleza, fotografei sessões do Cineteatro São Luiz e a incrível troca do letreiro", explica Sérgio. Inaugurado em 1958 e tombado como patrimônio histórico em 1991, o Cine São Luiz resiste no Centro da Cidade com uma programação diversa em filmes, espetáculos, peças de teatro e festivais.

Sérgio também percorreu as ruas do Parque Araxá para conhecer o Cine Nazaré, que descobriu por meio de uma reportagem do Vida&Arte no início de 2018. Cuidado com atenção pelo aposentado Raimundo Carneiro de Araújo, o conhecido Seu Vavá, o cinema das cadeiras vermelhas inaugurado em 1941 é o último cinema de bairro ativo em Fortaleza. "O Seu Vavá é um cara incrível e me contou toda a história do Cine Nazaré. Sinceramente, eu vou manter isso daqui para sempre", emociona-se o fotógrafo. "Ele recebe os espectadores, organiza algumas sessões especiais em 35 milímetros, convida os amigos... É interessante porque ele recebeu do Cine São Luiz as poltronas antigas, sucatas que ele aproveita e são as cadeiras do Cine Nazaré hoje. Minha visita foi incrível, ele projetou o filme em rolo mesmo, foi lindo", complementa.

Entre capitais nacionais e pequenas localidades ao redor do globo, Sérgio conheceu mais da história dos povos a partir do que vemos e preservamos. "Na região leste dos Estados Unidos, há cinemas mais atípicos. No exterior, é perceptível que sempre havia muita riqueza relacionada ao cinema. No Brasil, o pensamento é outro, é uma coisa bem diferente. Existiam grandes redes que investem em cinemas antigos de rua, mas agora é fundamental não deixar essa realidade se perder", pontua. Com curadoria do renomado fotógrafo Bob Wolfenson, Cine Mu(n)do estreará no Metrô de São Paulo neste mês de março, onde permanecerá por três meses em diferentes estações. O fotógrafo deve voltar ao Ceará ainda no segundo semestre deste ano para continuar os registros no Estado. Até lá, é possível adquirir o livro Cold Hot na livraria do Museu da Fotografia por R$120.

Bruna Forte