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Entre conservar e avançar

| Análise | Tentando se equilibrar entre conservadorismo e abertura, a Academia celebra a diversidade na 91ª edição do Oscar, mas dá maior prêmio da noite a longa questionado

26/02/2019 04:40:44

Foram 24 os prêmios entregues na noite do último domingo, 24, na cerimônia do Oscar. Destes, 10 tiveram como vencedores pessoas não-brancas. Ainda do total, 9 foram vencidos por mulheres para além das categorias de atuação feminina. Marcas históricas, enfim, foram alcançadas: pela primeira vez a maioria dos vencedores das categorias de atuação foram não-brancos. Rami Malek foi o primeiro árabe-americano a ganhar em Melhor Ator. Mahershala Ali foi o segundo negro a vencer dois Oscar por atuação, depois de Denzel Washington. Domee Shi foi a primeira não-branca a vencer por Curta de Animação. Spike Lee finalmente ganhou seu primeiro Oscar competitivo. Hannah Beachler foi a primeira mulher negra indicada - e vencedora - em Direção de Arte, por Pantera Negra. O mesmo filme deu a Ruth E. Carter o título de primeira mulher negra a vencer em Figurino. As vitórias de Ruth e Hannah marcam a primeira e segunda vez, em 35 anos, que mulheres negras venceram fora das categorias de atuação e, junto da vitória de Regina King (Atriz Coadjuvante por Se a Rua Beale Falasse), é a primeira vez que mais de uma mulher negra vence na mesma edição.

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Ver movimentos que deveriam ser naturais acontecerem pela primeira ou segunda vez na 91ª edição da premiação é sintoma de uma indústria ainda enviesada e fechada. Cabe e é necessário questionar. É preciso, ao mesmo tempo, comemorar cada uma dessas vitórias. Ainda mais levando em conta que, no mesmo ano em que tenha quebrado tantas barreiras, a Academia tenha também optado por dar o principal prêmio da noite a um longa simplista como Green Book - O Guia, que ainda levou Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali e Roteiro Original.

Dirigido por Peter Farrelly, o filme biográfico conta a história da amizade entre o pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) e o motorista branco Tony Lip (Viggo Mortensen) em uma viagem pelo sul dos Estados Unidos dos anos 1960. O fato é que, escrito e dirigido por brancos, a obra tem um olhar branco sobre a questão do racismo, simplificando e personalizando discussões importantes. Apesar de palatável ao público, o filme foi questionado. A família de Don Shirley acusou a obra de compor um retrato mentiroso do músico, inclusive afirmando que ele e Tony nunca foram de fato amigos. O filho de Tony, Nick Vallelonga, que assina o roteiro e a produção, defende a obra, mas foi ele mesmo alvo de controvérsia na temporada de premiações quando veio à tona uma publicação ofensiva de sua autoria sobre muçulmanos. Para finalizar, Farrelly também se viu envolto em acusações de comportamento sexual inadequado.

É possível supor o cenário que favoreceu a vitória de Green Book frente a Roma, considerado favorito na corrida pelo Oscar, ou até mesmo a A Favorita e Infiltrado na Klan, outros filmes competitivos que terminaram a noite com uma estatueta cada. O primeiro ponto diz respeito ao método de votação da categoria Melhor Filme, o voto preferencial. Com ele, os votantes dispõem os indicados em uma lista em ordem da preferência pessoal, na qual o primeiro lugar ganha mais pontos que o segundo e assim até o final. Filmes médios, então, conseguem se destacar.

O outro ponto é o contexto de abertura da Academia. Formada historicamente por homens brancos e idosos, ela se abriu nos últimos anos ao convidar um número recorde de profissionais mulheres, não-brancos e estrangeiros. Mesmo com a entrada de outras visões, a maioria dos membros segue tendo o mesmo perfil histórico. Assim, se estabelece uma "disputa" interna em que a mesma Academia que celebra Green Book também premia Spike Lee em Roteiro Adaptado por Infiltrado na Klan, por exemplo. É uma premiação sintomática das disputas políticas e sociais nas quais não somente os Estados Unidos estão envoltos, mas também o mundo.

 

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