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Jornal
DISCUSSÃO

Fortaleza, futuro do pretérito

|DISCUSSÃO|Obras recentes de diferentes linguagens feitas por artistas nascidos ou estabelecidos em Fortaleza refletem sobre a Cidade a partir de abordagens distópicas e tecnológicas

12/02/2019 01:20:57
Memórias do futuro em ruínas
Memórias do futuro em ruínas

Praia do Futuro. Cidade 2000. Fortaleza 2040. O que vem se inscrevendo historicamente na capital cearense, pelo menos do ponto de vista das elites econômicas e políticas, aponta os olhos e o dedo em riste para frente. Mas o que há lá? O que foi e é pensado para o futuro de Fortaleza? E o que ele pode ser? Artistas de diferentes linguagens vêm, em suas obras, propondo outros olhares - e futuros - possíveis para a Cidade. São filmes, espetáculos, fotografias, músicas que sugerem reflexões não apenas sobre o porvir, mas em especial sobre passado e presente.

Abordagens que apostam em distopia, ficção científica ou elementos da tecnologia, não são novidade no curso histórico da arte, mas a quantidade de obras recentes do tipo feitas em Fortaleza chama atenção. "Creio que existem algumas particularidades de Fortaleza que, talvez, estimulem que a produção de ficção que sai da Cidade reflita sempre sobre o estado distópico das coisas. Não se pode esquecer que foi em Fortaleza, por exemplo, que surgiram aquelas coreografias surreais - com uma certa performance fascista-alegre - de pessoas pintadas de verde-amarelo. Não é possível não responder a isso sem um certo tom de ironia e linguagem de gênero", estabelece a jornalista e crítica de cinema pernambucana Carol Almeida. Em seu blog, Fora de Quadro, ela destaca em texto sobre o longa cearense Tremor Iê (2019), dirigido por Lívia de Paiva e Elena Meirelles, para Fortaleza estar se estabelecendo como palco de "algumas das experimentações mais arriscadas nesse campo da fabulação distópica".

Entre as citadas por Carol no referido texto e na entrevista ao O POVO, além de Tremor Iê, estão Medo do Escuro, de Ivo Lopes Araújo; Com os Punhos Cerrados, de Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diógenes - "apesar de todo o eixo machista que lhe atravessa, trata também de um futuro-presente"; Antes da Encanteria, de Jorge Polo, Paulo Victor Soares, Lívia de Paiva, Gabriela Pessoa, Elena Meirelles; Boca de Loba, de Bárbara Cabeça; e Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno, de Leon Reis.

Na obra de Bárbara, a Fortaleza vazia e noturna na qual um grupo de mulheres se insere na trama traz ares de distopia. "Não tivemos intenção de trabalhar com futuro. O filme vem da vontade de falar de uma coisa cotidiana, o assédio", conta. Mesmo que o filme não tenha marcadores de tempo, a diretora vê uma relação metafórica entre alguns planos e desdobramentos políticos recentes. "Quisemos usar elementos da rua, como placas e bustos, para trazer a presença masculina para ela, para mostrar a questão da opressão e dominação masculina que existe, isso com o olhar crítico de que essas placas e bustos são uma homenagem ao passado. Mas com o que estamos vivendo agora, isso se ressignifica. Há muitas homenagens a padres, militares, coronéis. Vendo nossa bancada no congresso, nosso presidente, antes era uma coisa do passado e agora realmente aponta mais para o futuro. São alguns elementos que o que estamos vivendo vai ressignificando. É uma coisa que está aí, na iminência de rolar, e o comportamento das meninas não é só sobre o assédio, mas sobre essa resistência a isso", defende Bárbara.

Já o filme de Leon se utiliza mais de marcadores temporais - que, porém, olham para o passado, como o próprio cartucho de Super Nintendo do título. "Quando eu estava pensando no filme, imaginava ele num gênero que não era nem o sci-fi. Eu pensava em fazer uma fantasia. O que bateu, e é muito interessante, é que as pessoas vêem futuro nesse filme, mas eu tô falando de agora", afirma. "Ele não coloca um tempo definitivamente, mas eu gosto muito que ele está olhando para o passado. Se você for parar pra pensar, você pode ir pra qualquer periferia de Fortaleza e ver um cartucho de Super Nintendo, um Playstation 1 - eu jogava Super Nintendo quando já existia o Playstation 2. A gente lida com alguns restos porque os tempos são distintos pra cada espaço", reflete. No filme de Leon, há ainda a utilização do longa marcado pelo discurso racista O Nascimento de Uma Nação (1915), de D.W. Griffith. "(O protagonista) entra em uma TV em que está passando esse filme e, lá, ele vai começar a fazer algo para quebrar aquilo", conta.

Para além da presença forte no audiovisual, a relação com as reflexões dos tempos e a Cidade vêm também, por exemplo, em espetáculos como o Fortaleza 2040, da bailarina e mestre em Artes Andreia Pires. Referenciando no título o nome do projeto da Prefeitura Municipal que projeta ações a médio e longo prazo para a Capital, a obra cênica, segundo a artista, não é sobre o projeto, apesar de apontar para as relações entre os tempos históricos de Fortaleza. "Há quem deseja uma Fortaleza do futuro, mas que não tem condição de conhecer a Fortaleza do presente, os inúmeros fragmentos que têm na Cidade", ressalta Andreia. A partir da coreografia, a bailarina explica que a obra "é muito mais sobre o que a gente pode fazer agora, como a gente age e se movimenta". A perspectiva de futuro que se coloca, assim, "é muito mais apocalíptica do que sonhadora, como se o sonho para o futuro fosse bloqueado pela incapacidade de construir coisas no presente. (Fortaleza 2040) não é a meditação sobre o que virá. A coisa que me interessa mais é pensar no agora", atesta.

Nas artes visuais, a exposição fotográfica Memórias do Futuro em Ruínas, de Mariana Smith, traz desde o título a noção de tempo na Cidade. A partir de um estudo sobre a Praia do Futuro e as dunas do litoral, a artista trabalha o "futuro utópico que um dia se escreveu" na Capital. "É como se o tempo ali passasse mais rápido por conta da maresia. Tem todo esse contexto do desejo de um futuro que fosse desenvolvimento mas vira ruína", metaforiza Mariana. É pela ruína, inclusive, que se constrói uma noção outra de futuro na obra da artista. "A ruína se tornou esse corpo que sobrevive ao homem. O homem ocupou a região, mas a natureza teve força para retomar e continuar vivendo", aponta.

Na exposição de Mariana, um dos trabalhos referencia as grandes obras que foram tentadas na Capital, como o Acquario, a Ponte Estaiada e o Mirante, em um viés crítico. "São obras gigantescas que retiram as populações tradicionais dos seus lugares de origem. A cidade vai se desenvolvendo passando por cima de muita coisa. É um desejo grandioso de aparecer, quase como Dubai. Prédios, aquários, mas sem estrutura e base sólida. Quem conhece a Cidade sabe que ela é mais do que a Beira Mar e esse cartão postal", lembra Mariana. A metáfora da ruína também serve para refletir sobre a relação da Cidade com a memória. "Isso é pouco cuidado aqui. Se passa por cima do que já aconteceu, como se não tivesse passado. Para os governantes, Fortaleza sempre olha para esse futuro distante. Enquanto estão fazendo essas obras, está se fazendo um processo de apagamento da história da cidade. O Arquivo Público está numa decadência de dar tristeza", compara.

"O plano é que Fortaleza não tenha um passado histórico e que ela surja como uma nova cidade", dialoga Leon. "Nesse processo, muitas regiões são sitiadas, como com as torres de vigilância que estão sendo levantadas e comunidades engolidas por grandes obras. A ideia de distopia é presente na vida de pessoas que já vivem isso hoje em dia. Isso não é uma fala minha, é uma ideia espalhada pelo mundo. A distopia já acontece na vida de muitas pessoas", aponta. "Há algumas coisas em comum entre todas essas produções e isso diz respeito a questões centrais de nossos tempos: quando o apocalipse já é uma experiência vivida no real, quando esse apocalipse acorda e deita com você todos os dias (o que é a vida de boa parte da população negra e periférica deste país senão o apocalipse diário?), como é possível imaginar o futuro?", questiona a crítica de cinema Carol Almeida. Referindo-se ao cinema brasileiro, mas valendo para diferentes linguagens que produziram obras com tal caráter, a jornalista aponta que essa produção passa "a pesquisar sobre como essa memória nos leva a futuros que parecem repetições de traumas que não resolvemos".

João Gabriel Tréz