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Jornal

Acaso que vira destino

Eduardo Coutinho respeitava suas personagens, algo tão primordial que me tocou profundamente, a mim e ao Arthur Gadelha, amigo e parceiro de trabalho. Recebemos influência direta desse cinema e colocamos em prática no nosso segundo filme, o documentário A Jovem Democracia, sobre o primeiro voto de estudantes secundaristas da rede pública de Fortaleza. O filme surgiu de um contexto imediato e ficou muito claro que não sabíamos o que iríamos encontrar. Tivemos que lidar com diferentes realidades e entender uma juventude que já não era a nossa, uma história nova sobre como pensam politicamente. Não tínhamos qualquer direito de buscar algo que queríamos ver. Iria surgir. Então Coutinho está na gente e não seria coincidência que durante as gravações exibimos no nosso Cineclube Âncora o seu Cabra Marcado Para Morrer. Um senhor que criou muito, fazendo um trabalho que reinventou nosso cinema. Quem dera estivesse vivo hoje para ajudar a entender a loucura que vivemos. "Quando o acaso acontece no filme, vira destino". Ouvi isso de Beth Formaggini no começo do ano passado, ela que foi produtora de muitos documentários de Coutinho. Pude ouvir histórias sobre ele e, vindas de alguém tão próximo, foi como se eu o conhecesse um pouco também. O "acaso" no documentário é tão mais importante do que um roteiro prévio. Guardo isso com muito carinho e sigo buscando esses acasos que dão significados especiais ao cinema.

Kamilla Medeiros é diretora do curta de ficção Capitais (2018) e do ainda inédito documentário Primeiro Turno