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Vilarejo de fábulas

|Temporada|Espetáculo infantil do Cangaias Coletivo Teatral se apropria do realismo fantástico para discutir gênero na infância

07/02/2019 00:31:27
Espetáculo infantil utiliza realismo fantástico para discutir gênero na infância
Espetáculo infantil utiliza realismo fantástico para discutir gênero na infância

Antiga lenda narra que, num vilarejo distante e cercado de muitos mistérios, uma criança é menino nos minutos pares e menina nos minutos ímpares. A vivência infantil, que se amarra a tantas outras histórias fantásticas, serve de enredo para o mais recente espetáculo do Cangaias Coletivo Teatral, que discute gênero na infância e a relação da humanidade com a natureza. Abraçando o desafio de abordar com leveza, ludicidade e encantamento, temas importantes de serem debatidos desde a mais tenra idade, a montagem continua sua temporada de estreia neste domingo, às 17 horas, no Theatro José de Alencar.

O percurso narrativo do espetáculo O Regresso dum Barquinho de Papel, com boas doses de realismo fantástico, conta a história de uma criança que ora é Beta, ora é Beto. Morando em um vilarejo sem água há mais de dez anos, ela vive com a bisavó e a cadelinha Baleia. A vida no local passa por mudanças a partir do momento em que ela encontra um bicho gigante - e cheio de mistérios. Este encontro, inclusive, é o primeiro passo para que reflexões sobre a infância e a relação da humanidade com a natureza tomem lugar no palco. O espetáculo tem direção de Luís Carlos Shinoda, que também atua na montagem.

"A temática do espetáculo parte de uma discussão sobre gênero, cores, comportamentos e outros elementos ligados à infância. Nosso propósito é trazer um novo olhar sobre o que é ser menino e menina", explica Luis Carlos. O Regresso Dum Barquinho de Papel estreia no momento em que os estereótipos de gênero na infância ganham o centro de discussões no País. "A gente sai dessas questões mais amplas para investir em uma abordagem mais sutil, uma aproximação que deixa,
para o público, a possibilidade de refletir e criar a forma dessa criança junto com a gente", continua.

A peça é uma adaptação do texto O Braço do Pai, do dramaturgo Rafael Barbosa, vencedor do Concurso Nacional de Jovens Dramaturgos de 2017. Com ausência de texto falado, a peça explora uma proposta sensorial diferente para alcançar a curiosidade dos pequenos. "Nossa aposta é abrir outras possibilidades de sensibilidade dentro do teatro infantil, com um espetáculo que trabalha elementos cênicos não tão óbvios. O cenário muda de lugar, os personagens também, tudo corrobora com esse enredo que mergulha no fantástico", explica.

Com atuação nas áreas de pesquisa, formação e produção, o Cangaias Coletivo Teatral surgiu em 2012 com foco na experimentação, na reinvenção da linguagem e no trabalho imagético no teatro. No seu repertório de produções, estão o espetáculo Miau! (infantil), de 2016, e Na Colônia Penal, baseado em texto homônimo do escritor tcheco Franz Kafka. O diretor lembra que as montagens procuram imergir em temáticas contemporâneas e seus diversos desdobramentos. "Pra gente é muito importante transformar em poesia, no palco, essas questões que perpassam nossa vida cotidiana. Nos colocamos diante do público de modo reflexivo, mas sempre com muita preocupação estética", conclui.

Com uma equipe de quatro atores, a peça também aborda a proximidade da personagem com o meio ambiente e o modo como essa relação se torna singular ao passar do tempo. "No momento em que se encontram, a criança e o Bicho Gigante, eles constroem uma bonita relação de amizade, afeto. É daí que decorre uma das reflexões mais importantes da peça", ressalta Gabi Gomes, atriz e também produtora do espetáculo. Há dois anos no Coletivo Cangaias, ela dá vida à protagonista de "O Regresso dum Barquinho de Papel".

Desde a sua criação, em 2012, o coletivo Cangaias já participou de importantes festivais, como o For Rainbow, Festival Maloca Dragão, Festival Popular de Teatro de Fortaleza e o Festival de Teatro de Fortaleza. Além de trabalhar com uma pesquisa de linguagem, o grupo tem se ocupado em incentivar a formação em artes cênicas, oferecendo anualmente o Curso Livre de Práticas Teatrais (CLPT), com duração de oito meses.

Ivig Freitas