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Jornal

"Eu tenho asas, não se esqueça"

| Música | O Vida&Arte resgata trajetória do cantor e compositor Marcus Dias, homenageado em show beneficente

01/02/2019 04:06:59
Fac-símile do Vida&Arte em 30 de julho de 1991. O caderno divulgou, na ocasião, a apresentação de Marcus Dias e Isaac Cândido no Theatro José de Alencar
Fac-símile do Vida&Arte em 30 de julho de 1991. O caderno divulgou, na ocasião, a apresentação de Marcus Dias e Isaac Cândido no Theatro José de Alencar

Quando o cantor e compositor Isaac Cândido quebrou o braço direito em um acidente automobilístico, anos atrás, seu parceiro musical Marcus Dias visitou-lhe em casa como de costume. Carregava uma poesia rabiscada à mão, presente para o amigo acamado. "Baleado no peito e como que sem jeito/Um pássaro desaba sobre algum telhado/Eu tenho asas, não se esqueça/Estão cortadas, mas tudo bem". As palavras ganharam acordes e tornaram-se mais uma composição do extenso repertório do letrista. Hoje, tantos anos passados, Isaac volta a dedilhar Sobre as Asas em seu violão quase como uma prece: no último dia 31 de dezembro, o compositor Marcus Dias sofreu um AVC. A recuperação ainda é lenta, mas o estado de saúde mobilizou a cena artística cearense no desafio de homenagear sua obra e angariar fundos para o tratamento.

Marcus Dias chegou a cursar Engenharia, depois abandonou os números e ingressou em Letras. Mas foi nas ruas do Bairro de Fátima, há mais de 30 anos, que sua paixão pela música se presentificou. "Na realidade, eu e o Marcus praticamente começamos a compor juntos. A gente morava quase vizinhos. Conheci o Marcus quando ele tocava violão na calçada. Parei para conversar, falei que era músico, aquele encontro que terminou em um barzinho na esquina e começou uma parceria. A gente foi um pouco marginalizado porque sempre tocava autoral. Marcus nunca gostou desse negócio de cover", rememora. A composição mais famosa da dupla é Os Bêbados, mas os músicos acumulam mais de 200 canções partilhadas na estrada conjunta. Em 2005, 10 melodias de Marcão - como é conhecido entre os amigos - musicadas por Isaac e uma canção de Raimundo Fagner com Abel Silva foram reunidas no atemporal álbum Algo sobre a distância e o tempo.
Ao longo dos anos, o Vida&Arte acompanhou e noticiou os movimentos de Marcus Dias: entre 1996 e 2000, o cantor e compositor uniu-se a Dilson Pinheiro na gestão de um dos mais frequentados espaços de música na cidade - o Domínio Público. Também foi proprietário de uma loja de instrumentos no Centro, mas o amor pela escrita deu o tom de seus dias. Além de Isaac Cândido, Marcus fez parcerias com artistas, como Rogério Lima, Marcílio Homem, Edmar Gonçalves, Ciribáh Soares, Pantico Rocha e a banda carnavalesca Luxo da Aldeia. "Pra mim, além do Fausto Nilo, o Marcus é o maior letrista que tem. Eu o exalto demais! O Marcão tem umas letras maravilhosas. Eu fui me apaixonando pela maneira como ele escreve, são mais de 10 anos união e cerca de 50 músicas juntos", recorda Pantico. Após o Carnaval, Pantico lançará o disco Tudo que passa é permanente, último da trilogia composta com Marcus Dias.

"O respeito pelo trabalho sempre foi o que o Marcus precisava e queria", resume Isaac. Amanhã, o palco do Theatro José de Alencar recebe mais de 60 artistas voluntariados em um show beneficente que passeia pela carreira do compositor. Os lucros arrecadados vão custear o tratamento que Marcus inicia, agora, no Hospital Sarah Kubitschek. Da plateia - debilitado, mas muito lúcido -, Marcus acompanhará seu recomeço na voz dos companheiros.

Bruna Forte