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Jornal
Análise

"Teatro, para mim, é produção de pensamento e afeto"

Algo que sempre me encantou no teatro é seu poder de contágio com outras áreas, outros assuntos, no intuito de questionar, quase sempre, nossa visão de mundo, nossas verdades, nossas certezas. No processo de experimentação e pesquisa do Corpo Impossível - que deu origem ao espetáculo E.L.A - desde o início debatemos sobre as seguintes questões: como representar um corpo? O que pode um corpo? O que faz de um corpo um corpo? Que corpo é possível?

Para além de suas representações oficiais, entre a publicidade e a pornografia, entre o "orgânico" e o industrial, entre o belo e sua decomposição, entre o fascismo e a utopia, o que resta de intensidade, poética e política no corpo? Como representar o irrepresentável? O pensamento de Agamben, Baudrillard, Preciado, Eliane Robert Moraes; a cultura pop, a figura da diva, o animalesco; as artes visuais, o jazz, a psicanálise, a medicina, a mitologia, tendo a biografia da Jéssica como costura sensível, deram-nos a estrutura para firmar esse espetáculo.

O teatro, por intensificar a condição mais bela e trágica do ser humano - sua fugacidade -, por convocar artista e plateia para uma experiência do instante, por não prescindir da morte, é o meio através do qual cada vez mais me instigo a criar e pôr em cheque o senso comum e minha própria visão de mundo.

Teatro, para mim, é produção de pensamento e afeto. E.L.A é, sobretudo, uma celebração de nossa amizade, minha e da Jéssica, parceiros de longa data, bem como de nossas diferenças e nossa possibilidade de diálogo.

E.L.A é minimalismo, revolução, beleza, saúde, doença, tecnologia, olhar, sedução, criação. Uma outra forma de dizer nosso lugar no mundo. Uma outra forma de nos dizer sujeitos. Pois Eu, como diria Rimbaud, é sempre um outro.

Por que fazemos teatro? Por que assistimos teatro? Porque não somos suficientes por
si só, talvez? Porque precisamos, sempre mais, da aventura humana de olhar para si através do outro? Porque precisamos da diferença, porque somos diferença?

DIEGO LANDIM

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