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Jornal

O país do "sic"

01/02/2019 03:51:37

O "sic" é a pochete da língua (sic). Cafona, quase sempre produz efeito contrário ao que se pretendia, seja chamar atenção para um erro, seja atestar que se trata de uma reprodução "ipsis litteris" de algo dito ou escrito cuja formulação é suspeita. De vez em quando, porém, o dever impõe seu uso, e o "sic" vira um signo de coragem (sic).

É o caso de agora. O Brasil de hoje requer constantemente o uso da expressão latina "sic erat scriptum" - "assim como escrito" ou coisa que o valha. Uma barragem se rompe, por exemplo, e dezenas de pessoas morrem (sic) e outras tantas estão desaparecidas (sic), mas o secretário de privatizações do Governo Federal assegura que é preciso salvar a empresa (sic), cujo "CNPJ não tem culpa" (sic).

Antes dele, porém, o próprio presidente da República (sic), ao se referir ao desastre, saiu-se com uma "bagagem de dejeitos" (sic), expressão que soa curiosamente freudiana (sic), como se Bolsonaro pretendesse, por ato falho, aludir a alguma espécie de acúmulo involuntário de barbarismos cometidos por sua equipe em apenas um mês de governo (sic).

Não sendo nem uma coisa nem outra, fica patente apenas que o presidente fez bem em abrir mão dos cerca de 45 minutos de que dispunha em Davos (sic), mandando seu recado em apenas seis (sic), fatia de tempo cuja duração é menor do que a de muitas músicas (sic), como Faroeste Caboclo (Legião), Triste Bahia (Caetano), Diário de um detento (Racionais MC's) e a não menos extensa Saga de um vaqueiro (Mastruz com Leite), que soma oito minutos e trinta segundos - dois e meio a mais que a peroração do mandatário.

Mas não para aí. Em entrevista a um jornal, o deseducado ministro da Educação (sic), Ricardo Vélez, o mesmo que vive em guerra contra o "marxismo cultural" (sic), afirmou antes de ontem que "as universidades (sic) devem ficar reservadas (sic) para uma elite intelectual" (sic).

Há casos mais próximos dos cearenses, porém. Não saíram da boca de autoridades, mas do alencarino comum (sic), esse que foi às urnas em outubro e, de lá pra cá, tem precisado responder frequentemente sobre o paradeiro de Fabrício Queiroz e a dinheirama que o Flávio Bolsonaro fez passar por um caixa eletrônico da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (sic).

Desocupado em férias (sic), estava o cronista num café metido a besta da cidade quando, na mesa ao lado, um homem mui bem apresentado, taça de vinho em punho (sic), pediu a palavra para dizer que "o viadinho (sic) tramou contra si mesmo (sic), arranjando desculpas para atrair holofotes (sic) antes de se mudar para Paris (sic), para onde irá a bordo de um avião rosa (sic) com a palavra gay escrita ao lado" (sic).

Ora, amigo leitor, amiga leitora (sic), a frase é literal, pois eu, habituado a andar com papéis nos bolsos, entre boletos atrasados e bloco, anotei rapidamente antes que a esquecesse, coisa que vem se tornando frequente, seja pela idade, seja pela necessidade de esquecer (sic).

O "viadinho", descobri logo depois, era o deputado federal Jean Willys, do Psol, reeleito para mais um mandato, mas do qual renunciou alegando risco para a sua vida (sic). Para os colegas da mesa do café, o parlamentar havia inventado (sic) uma ameaça fantasma (sic), da qual, com a ajuda da imprensa (sic), tinha o objetivo explícito de se beneficiar (sic) a fim de ampliar a bancada da homossexualidade (sic) no parlamento. Dá pra acreditar (sic)?

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