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Jornal

Aqui seguimos de pé

| literatura | Escritora cearense Angela Gutiérrez toma posse como a primeira presidente mulher da Academia Cearense de Letras com o desejo de aproximar a sociedade dos escritores locais

01/02/2019 03:58:30
FORTALEZA, CE, BRASIL, 28-01-2019: Angela Gutierrez, escritora, assume a Academia Cearense  de Letras. (Foto: Mauri Melo/O POVO).
FORTALEZA, CE, BRASIL, 28-01-2019: Angela Gutierrez, escritora, assume a Academia Cearense de Letras. (Foto: Mauri Melo/O POVO).

Alba Valdez, pseudônimo de Maria Rodrigues Peixe, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Cearense de Letras (ACL). Em 1922, quando ainda se afirmava enquanto Sociedade de Homens de Letras, Alba ocupou a cadeira número 8 da instituição. Jornalista, educadora e escritora, Alba iniciou um trajeto ininterrupto: a inserção da mulher na vida pública literária no Estado. Em 1930, após reestruturação da ACL, a precursora não foi convidada novamente para compor o quadro de membros - o que, talvez utilizando-se de um eufemismo, considerou uma descortesia. Imediatamente, redigiu um artigo intitulado De pé. Em suas palavras, o ato atingia também a todas suas compatriotas, "mulheres que, como eu, mourejam na seara das letras". A igualmente fundadora da Liga Feminista Cearense voltou à entidade apenas em 1937, mas carregou em seus passos a força retomada por outra escritora quase 100 anos depois. Nesta quarta-feira, em cerimônia realizada na sede da agremiação a partir das 19 horas, Angela Maria Rossas Mota de Gutiérrez toma posse como a primeira mulher
presidente da ACL.

Autora do renomado O Mundo de Flora (1990), entre demais títulos, Angela Gutiérrez assume a vaga do então presidente Ubiratan Aguiar - regente no binômio 2017/2018. A nomeação foi celebrada entre literatos, mas Angela lamenta ainda ser necessário noticiar conquistas há muito reivindicadas. "Eu espero que chegue o tempo em que não cause mais surpresa a mulher assumir um cargo importante. Mas enquanto a mulher não tiver uma voz que tenha a mesma potência de divulgação e de poder que homem, é bom que se destaque especificamente isso. Nesse momento, percebo sim que quando abro uma porta - ou outra mulher abre -, ela ficará aberta para todas nós", defende a escritora.

Ingressa na Academia Cearense de Letras há 21 anos e vice-presidente na gestão passada, Angela dá continuidade ao trabalho iniciado por seu bisavô, Tomás Pompeu de Sousa Brasil (1852-1929). O advogado e político foi membro fundador e o primeiro a presidir a organização criada em agosto de 1894, pioneira do gênero no País. Licenciada em Letras, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará e pós-doutora em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, a ocupante da cadeira 18 relembra a insegurança juvenil já abandonada. "Vários colegas meus da UFC que eram também da ACL me perguntavam: 'Por que você não se candidata?'. 'Não, eu estou muito verde'. Até que o próprio presidente da Academia, à época o poeta extraordinário Artur Eduardo Benevides, me disse: 'Todos os acadêmicos querem você lá, você não quer entrar na casa do seu bisavô?'. Essa segunda pergunta foi decisiva. Ser presidente, pra mim, tem uma ligação muito mais afetiva, familiar, porque eu passei a vida ouvindo falar do meu bisavô. Isso me dá uma sensação de que eu tô cumprindo a missão que minha mãe gostaria. Ela e meu pai tiveram um papel importantíssimo na minha formação como escritora", emociona-se.

Organização particular, a Academia Cearense de Letras enfrenta o desafio de se integrar ao entorno e promover um amplo diálogo sociocultural. "Eu acho importante o discurso de Tomás Pompeu na solenidade de aniversário do primeiro ano da ACL, em que ele falou da Academia como uma criadora de cultura, mantenedora de conhecimentos e difusora disso tudo. Um dos primeiros gestos que eu gostaria de fazer é, como presidente, simbolicamente, abrir as portas da ACL para diversos segmentos da sociedade. Nós já fazemos isso, mas de forma muito restrita porque não temos número de funcionários suficiente para atender multidões. Essa ação não precisa ser feita espetacularmente: nem sempre um acontecimento cultural precisa ser monumental, ele pode acontecer em pequenos grupos", argumenta Angela. Em um crescente cenário de sucateamento de equipamentos culturais no Brasil, a escritora cearense aposta na força das micropolíticas. "Acho lindo isso de clube de leitura. Por que não receber na ACL? Nós podemos abrir espaço para pessoas que se dedicam aos versos, a dizer poesias. Temos possibilidade também de abrigar grupos maiores, como quando fazemos ciclos de conferência iniciados já na gestão de Arthur Benevides. Agora estou muito interessada em trabalhar com a literatura cearense, com o escritor cearense. Nós temos aqui escritores extraordinários a quem muito respeito", pontua.

Em uma bonita metáfora, Angela Gutiérrez compara a cultura à catedral francesa de Reims. "Ao mesmo tempo que ela foi muito agredida ao longo do tempo em revoluções e guerras, sempre foi reconstruída, nunca igual. Na fachada, entre santos esculpidos, existe um anjo sorrindo (o famoso L'Ange au Sourire). Aquele anjo me dá margem de imaginar que ele está sorrindo da humanidade, pensando 'Por que estão destruindo, por que não estamos todos unidos e construindo uma sociedade melhor?", finaliza.

Bruna Forte